Às vezes me dá um quê de tédio em escrever resenha de um livro, mas não é que eu não queira escrever, é que quero falar de um jeito mais informal. Às vezes tenho vontade de fazer longas análises, outras só comentar um pouco com vocês.
Tudo é válido e não tem a ver com o impacto do livro sobre mim, acho que só depende do meu momento mesmo e estou em um momento de ser mais pessoal e informal.
Queria ler O coração é um caçador solitário desde que ouvi esse título em um filme que vi. Não lembro o filme, mas esse título ficou, era o livro favorito de um personagem muito solitário. Pensei que ia me identificar com a solidão dos personagens e isso aconteceu mesmo.
Há um surdo para quem várias pessoas fazem confidências, ele está longe do melhor amigo, há um negro que quer fazer as pessoas lutarem pelos seus direitos em uma sociedade extremamente racista, mas nem os próprios filhos dão atenção, há um forasteiro com ideias comunistas que também não encontra eco para o seu discurso, há a menina Mick que é meio um exemplo disso tudo porque ela sonha com um grande futuro na música até que um dia se vê tapeada pela vida acordando cedo para trabalhar e dormindo cansada demais para continuar tento sonhos. Quantos de nós somos tapeados pela vida desse jeito?
Há essa coisa de se estar sozinho, sem perspectiva e sem ter o que fazer com o tempo. Parece que estão todos fazendo hora para alguma coisa que nunca acontece e enquanto isso a vida passa.
Eu comecei não gostando muito do livro porque é uma narrativa lenta, sem grandes acontecimentos, o foco é mais o estado de espírito dos personagens. Mas quando eu me identifiquei, eu gostei de passar esse tempo com os personagens, de imaginar essas vidas tão banais como a minha. Essas pessoas que têm tanto em comum, mas não sabem disso e não se comunicam sobre isso.

p.s. : O filme é A Love Song for Bobby Long.


Imagine juntar toda a sua correspondência, escrita ou eletrônica e contar a sua história através dela. É assim que


Aprendi que lar não é um lugar, e sim uma sensação. Posso deixar esse apartamento muito bonito, colocar um monte de floreiras nas janelas, colocar um capacho com boas-vindas diante da porta, pendurar uma placa com os dizeres “Lar, Doce Lar” em cima da lareira e passar a vestir um avental e assar biscoitos, mas a verdade é que eu sei que não quero ficar aqui para sempre. É como se eu estivesse esperando na estação de trem e tocando algum instrumento musical para ganhar dinheiro, apenas o bastante para pegar o próximo trem que me leve para longe daqui.

 Que engraçado. Tenho 30 anos agora e ainda me sinto como uma garotinha. Continuo olhando ao meu redor pra verificar o que as outras pessoas estão fazendo e me certificar de que não sou completamente diferente delas; continuo olhando ao meu redor, à procura de ajuda, esperando por uma cutucada de leve ou por um conselho ao pé do ouvido. Mas parece que não consigo atrair a atenção de ninguém. Ninguém à minha volta parece estar olhando ao seu redor e se perguntando o que deve fazer. Por que é que eu me sinto a única pessoa que está perdida, preocupada com as escolhas que fez e com as direções que tomou?

É assim que a vida normal deve ser? Porque estou acostumada com drama, drama, drama. Estou acostumada a ver as coisas se desviarem do meu caminho. Estou acostumada a me esforçar, a reclamar e lamentar por ter conseguido algo que não era bem o que eu queria, mas que simplesmente vai servir.


ISBN-13: 9788581635453
ISBN-10: 8581635458
Ano: 2014 / Páginas: 448
Idioma: português
Editora: Novo Conceito


A história de uma africana que viveu momentos difíceis em sua terra e viu tudo piorar quando foi capturada e embarcada para o Brasil. Em terras brasileiras, kehinde já chegou sem nenhum parente, mas ainda com muita força e vontade de viver e vencer.

Primeiro ela teve um trabalho em que não dava para julgar a dureza da escravidão pois estava como acompanhante para a filha do homem que a comprou.A sinhazinha veio a ser uma amiga para a vida inteira, apesar da diferença da cor, como as duas eram crianças e a menina era muito solitária, acabaram virando amigas.
Mesmo assim ela já viu coisas horríveis como a Sinhá arrancar os olhos de uma escrava que esperava um filho do marido dela, pois ela nunca conseguia ter um filho e odiava a enteada.
 Kehinde que foi chamada de Luisa pelos brancos acreditava que a Sinhá Ana Felipa atraia o que em África eles chamavam de abikus, são espíritos que gostavam muito um do outro e prometiam voltar logo ao orum-céu, por isso as crianças morriam muito cedo. Uma coisa que pode nos chocar é o que se deve fazer para que o abiku viva mais na próxima encarnação, ela diz que ele fez um trato com os outros abikus de morrer quando determinada coisa acontecer, o os abikus sempre tentam lembrar esse trato, para que os abikus não façam isso, deve-se mutilar o corpo da criança morta, dessa forma ela fica irreconhecível e os abikus não querem mais brincar com ela.



Crueldade é a palavra para definir as ações dos proprietários dos escravos. Todos eram batizados e recebiam um nome branco ao embarcar no Brasil. Proibidos de continuar com a família, com as crenças, cultura e religião que tinham na África, tinham que trabalhar além dos limites humanos com pouca alimentação e em condições precárias.
kehinede sempre tenta manter a fé, assim como outros escravos que dão um jeito de esconder suas imagens sagradas. As crenças africanas são vistas como erradas e como algo que prega o mal, isso é tão impregnado na mente dos africanos que mesmo depois de libertos e até os que voltam para a África, como vemos no fim do livro, continuam mantendo a crença em quartos escondidos e exibindo apenas a religião católica. Podemos perceber que até hoje as religiões africanas sofrem muito preconceito e aí estão as raízes disso.
A Sinhá Ana Felipa acredita que Kehinde faz algum feitiço contra ela e aproveita que a sinhazinha está no colégio interno para mandar Kehinde para a senzala grande, lá ela tem que trabalhar com o óleo de baleia que ela vê que já criou graves queimaduras em outras crianças. 
Mas para seu azar ela volta para a casa depois que o Sinhó José Carlos percebe que está se tornando uma moça. Ele tem o hábito de ser o primeiro homem das escravas e não se intimida nem depois que a esposa autoriza o casamento dela com um escravo. Kehinde tenta escapar dele e seu noivo Lourenço tenta ajudar mas ambos sofrem um terrível castigo.

Além de estuprar Kehinde com crueldade, ele faz o mesmo com o noivo dela e manda que cortem o pênis dele depois de muitos açoites.



Ela relata que depois disso, José Carlos foi picado por uma cobra e foi o começo de seu declínio adquirindo uma doença que o fazia apodrecer sem que nenhum médico ou padre pudesse ajudar. Com a morte dele, Ana Felipa muda muito, talvez com medo de sofrer o mesmo castigo. Kehinde tem um filho quase branco e a sinhá se apega a ele e começa a tratar o menino praticamente como um filho.  
Quando a sinhá sai da ilha e vai para São Salvador, Kehinde tem a oportunidade de trabalhar fora dando apenas algo como um aluguel de si mesma a sinhá e aproveita isso para juntar dinheiro para comprar a liberdade dela e do filho. Ela sabe ler porque prestava muita atenção nas aulas da sinhazinha e aprende inglês em um período de tempo que fica alugada para uma família inglesa.
Em São Salvador, ela percebe como os negros estão se organizando para conseguir comprar a liberdade. Além das fugas para os quilombos, há as confederações onde eles juntam dinheiro para a liberdade própria e dos outros. 
Trabalhando duro, Kehinde consegue dinheiro vendendo cookies ingleses e mais tarde consegue abrir uma padaria.
Quando ela consegue a liberdade dela, do filho e dos amigos, ainda se preocupa com a luta dos negros e se envolve em revoltas e lutas armadas. Mas percebemos que os negros estão muito divididos, os mulatos e nascidos na terra, os mais claros se sentem melhor do que os africanos. E os africanos convertidos em mulçumanos querem a liberdade apenas para eles e sonham em escravizar brancos e mulatos.

No meio disso tudo, Kehinde tem que cuidar do filho, Bonjoko, sabendo que ele é um abiku e tem um trato para morrer cedo, ela ainda conhece um português e tem outro filho com ele, é esse o filho para quem ela está escrevendo o relato que é o livro. Enquanto mora com Alberto, o português, em um sítio, ela é assaltada e acaba por matar um dos homens que tentou contra ela.
Os africanos libertos acabam sendo mal vistos na Bahia e com medo de ser deportada para a África, ela começa a se afastar do filho e dos amigos.
Ela passa muito tempo se preparando para ser algo como uma sacerdote dos voduns da família e encontra com uma rainha africana que foi escravizada, mas conseguiu a liberdade e também se dedica às crenças africanas. Como são muitos voduns e orixás e costumes e cerimônias é muito difícil para entende com apenas uma leitura, mas ela descreve cuidadosamente os lugares, as festas e como são feitas as cerimônias.
São muitos personagens também e eu só estou falando de alguns. Depois que a sinhazinha volta do colégio e se casa, elas moram por algum tempo próximas umas das outras e estão sempre se vendo e se ajudando. O marido da sinhazinha também acaba sendo muito amigo dela.
Mesmo quando poderia voltar para casa, Kehinde continua os estudos sobre os voduns e passa três anos sem ver o filho que fica aos cuidados do pai e da amiga Claudina que casa com o Tico que era amigo dela desde a ilha. Algo sempre a impede de ir ver o filho, mesmo quando há notícias ruins sobre mortes de amigos. Até que ela recebe a notícia de que o garoto desapareceu depois da morte de Claudina.
Eles descobrem que o pai endividado com jogos e com vergonha de depender do Tico, que também consegue dinheiro trabalhando com vendas, vendeu o menino como escravo. Kehinde parte para vários lugares onde poderia encontrar o filho, Rio, Santos, Campinas, mas sempre com pistas atrasadas e com decisões erradas que a afastam mais do destino do filho.
Depois de muita busca, ela tem um sonho com a África e pensa que talvez o filho esteja lá, ela acaba refazendo a vida lá, mas ainda não é onde vai encontrar o filho.
Eu já contei o livro quase inteiro, mas acreditem que há muito mais e isso tudo é só o principal do que me lembro. Eu fiquei impressionada com a luta dos negros pela liberdade, nós nunca estudamos isso nos livros de história. Percebemos que falta muita coisa para saber e se orgulhar dessa raça.
Algumas coisas podem ser chocantes e assim como Kehinde nós podemos chamar alguns africanos de selvagens e não falo dos pobres, mas dos reis que sacrificavam vidas humanas. Muitos africanos aproveitaram o que aprenderam no Brasil para levar conhecimento para a África quando puderam voltar. E Kehinde poderia se considerar mais inteligente e melhor do que muitos brancos pois enfrentando todos os preconceitos, torturas e dificuldades, ela conseguiu mais dinheiro e conhecimento do que muitos brancos que tinham o mundo inteiro aos pés deles.