E estamos morrendo. Dessa ou de outra maneira não estamos morrendo? Nunca o povo
esteve tão longe de nós, não quer nem saber. E se souber ainda fica com raiva, o
povo tem medo, ah! como o povo tem medo.

Maurício aperta os dentes que se quebram. Não quer gritar e então aperta os dentes quando o bastão elétrico afunda lá no fundo.

Silvinha da Flauta. Gigi. Japona. E você, Maurício? Quando o bastão entrar mais fundo, desmaia. Desmaia depressa, morra. Devíamos morrer, Miguel. Em sinal de protesto devíamos todos simplesmente morrer. “Morreríamos se adiantasse”, você disse. Lembra? Eu sei, ninguém daria a mínima. Arrancaríamos o coração do peito, olha aqui meu sangue, olha aqui meu coração!

Sabem que você foi preso e torturado, menino corajoso esse Miguel, é preciso ter coragem, bravo, bravo. Sabem que a Silvinha da Flauta foi estuprada com uma espiga de milho, o tira soube do episódio do romance do Faulkner, alguém contou e ele achou genial, “Milho cru ou cozido?”, perguntou o outro e ele deu pormenores: “Milho
esturricado, aqueles grãos espinhudos!”.

Quero que ouça o trecho do depoimento de um
botânico perante a Justiça, ele ousou distribuir panfletos numa fábrica. Foi preso e
levado à caserna policial, ouça aqui o que ele diz, não vou ler tudo: Ali
interrogaram-me durante vinte e cinco horas enquanto gritavam, Traidor da
pátria, traidor! Nada me foi dado para comer ou beber durante esse tempo.
Carregaram-me em seguida para a chamada capela: a câmara de torturas.
Iniciou-se ali um cerimonial frequentemente repetido e que durava de três a seis
horas cada sessão. Primeiro me perguntaram se eu pertencia a algum grupo
político. Neguei. Enrolaram então alguns fios em redor dos meus dedos, iniciando-se
a tortura elétrica: deram- -me choques inicialmente fracos que foram se
tornando cada vez mais fortes. Depois, obrigaram-me a tirar a roupa, fiquei nu e
desprotegido. Primeiro me bateram com as mãos e em seguida com cassetetes,
principalmente nas mãos. Molharam-me todo, para que os choques elétricos
tivessem mais efeito. Pensei que fosse então morrer. Mas resisti e resisti também
às surras que me abriram um talho fundo em meu cotovelo. Na ferida o sargento
Simões e o cabo Passos enfiaram um fio. Obrigaram-me então a aplicar choques
em mim mesmo e em meus amigos. Para que eu não gritasse enfiaram um sapato
dentro da minha boca. Outras vezes, panos fétidos. Após algumas horas, a
cerimônia atingiu seu ápice. Penduraram-me no pau-de-arara: amarraram
minhas mãos diante dos joelhos, atrás dos quais enfiaram uma vara, cujas pontas
eram colocadas em mesas. Fiquei pairando no ar. Enfiaram-me então um fio no
reto e fixaram outros fios na boca, nas orelhas e mãos. Nos dias seguintes o
processo se repetiu com maior duração e violência. Os tapas que me davam eram
tão fortes que julguei que tivessem me rompido os tímpanos, mal ouvia. Meus
punhos estavam ralados devido às algemas, minhas mãos e partes genitais
completamente enegrecidas devido às queimaduras elétricas. E etecetera,
etecetera.

TELLES, Lygia Fagundes. As meninas


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