Eu não podia respirar. Muitas pessoas juntas tornam o ar pesado e salgado. Não o salgado gostoso do mar, só salgado... ou salobro. Olhei o figurino da moça à minha frente na fila, eu tenho certeza que ela mandou fazer a roupa, ou nasceu com ela e foram crescendo juntas e se adaptando uma a outra. Lembro que eu pensava que quando fosse adulta descobriria vários segredos que os adultos compartilhavam, como se vestir, como controlar o cabelo. Mas parecia que eu tinha o mesmo guarda-roupas dos quatorze anos.
Nunca iria descobrir como domar os cabelos ou tê-los naturais e lindos. Mas a moça à minha frente com certeza desvendou os mistérios. Só olhando para ela eu já sabia que ela era o tipo de pessoa que continua na sala, depois que o entrevistador dispensa aqueles que não têm o perfil da empresa. Penso na minha imagem e não sei o que teria o meu perfil. Quase não me dou conta que as pessoas começaram a se mexer mais na fila.
Essa não era uma entrevista normal. Era uma galpão distante da cidade. A empresa contratante gentilmente nos trouxe em um ônibus confortável. Não há nada ao redor, além de silêncio e paz. Não tinha noção do que se faz por trás dos enormes muros, só queria o emprego e o anúncio mesmo vago atraiu outras pessoas com o mesmo desejo.
Celulares e outros aparelhos eletrônicos ficaram no ônibus. Confidencialidade era o termo mais importante do contrato, não poderíamos entrar lá com nada que pudesse sair levando algum segredo. Detectores de metal foram acionados. Entramos todos juntos. Ouvimos o barulho do ônibus indo embora. Voltaria mais tarde. Tudo o que vi era branco,o piso, o teto, as paredes. Um enorme salão branco. Esperamos. Muito. Os minutos se transformaram em horas, dias? Eu não sabia mais. Será que existia algo além do salão? A claustrofobia me deixava louca, o ar cada vez mais salobro. Saía procurando o ar, mas não havia portas, a única parecia ser a por onde entramos e que foi trancada logo depois.
Ansiando o ar, encontrei outra porta. Alívio, por um momento pensei estar em algum laboratório responsável por experiências macabras e que seríamos usados como cobaia. Ri nervosa de mim mesma. Abri a porta, dei com o muro branco. Um metro de distância da porta até o muro. Uma pequena porção de céu disponível. Outras pessoas se aproximaram. As pessoas me empurravam abismadas com o muro. Mas estávamos presos, todos gritavam e ninguém se entendia. Não havia saída.
Constatei que não havia como escalar o muro liso por mais que tentássemos nos agarrar a ele. Quando me virei em desespero,vi o rosto da moça bem-vestida em frente ao meu. Vi cada dente tão branco quanto o muro enquanto ela abriu uma gargalhada que pareceu interminável.
Sabe aquele barulho insuportável que faz quando se risca uma placa de isopor, ou com as unhas no quadro-negro? O som do sorriso dela era tão irritante quanto. Acho que ela estava nervosa por estar meio que me demitindo. Não é assim que os bons líderes se comportam pelo que eu li nos livros. Mas eu achava que ela era uma boa líder. Ela disse ou eu quis entender que eu era boa demais para eles?
Me peguei pensando que o sonho e o emprego não foram tão diferentes. Duas formas de estar presa, ser ar, no barulho, sem perspectiva de futuro e sem nenhuma saída.


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