Eu não assisto BBB, por isso não opinaria em nada sobre a competição dos participantes. Mas o que eu vi sendo divulgado no Twitter foi uma garota exibindo o seu racismo enraizado como muitas pessoas fazem diariamente. Munik, ao ver a pia cheia de pratos sujos, disse que eles não têm empregados, eles não têm um negro para fazer isso. E fazendo a tarefa doméstica, ela sentiu-se a negra do BBB. Eu entenderia se ela usasse o termo 'escravo', mas ela deveria saber que 'negro' não é mais sinônimo de escravidão há muito tempo, embora, sim, provavelmente alguma pesquisa pode comprovar que a maioria dos empregados domésticos são mulheres negras. Mas ela usou isso de uma forma depreciativa.
Os fãs defendem a moça porque ela tem um amigo negro e certamente porque esse tipo de racismo acontece todos os dias embaixo dos nossos narizes e nós estamos acostumados. Não é vitimismo, eu me sentiria incomodada se eu estivesse naquela cozinha e ouvisse isso, porque sutilmente estaria significando que eu por ser negra é quem deveria fazer o trabalho que ninguém mais quer. Da mesma forma que eu me sinto ofendida quando alguém fala que o cabelo de Fulana é sujo e descuidado porque ela usa o cabelo natural, me sinto ofendida quando alguém fala que está com fedor de negro, que aquele bandido só podia ser negro, me sinto ofendida porque essa dor é nossa. A dor é minha porque diariamente escuto coisas como 'esses africanos são tão amaldiçoados que todas as doenças vêm de lá'  ou ' como aquela negra da favela conseguiu aquele bom emprego?' Porque todos podemos ter o mesmo sangue como uma nação mestiça, mas quem paga o preço da escravidão até hoje são os marcados com o negro na pele.
Porque eu mesmo com um diploma de nível superior ainda tenho que explicar para burguesas desavisadas que não, não quero um empreguinho na casa delas.Trabalho doméstico não inferioriza, mas é o quadrado onde eles nos colocaram e não querem permitir a saída. Nós já saímos, não tem mais como segurar.
Talvez você ache que racista é uma palavra pesada, mas enquanto não encontrarmos outra, você, que é negro ou simpatizante, não se intimide diante dessas situações, não tenha medo de ser chato ou politicamente correto, coloque a boca no trombone nem que seja para falar um 'peraí, mocinha, vá estudar História contemporânea e aprender que nesse mundo novo os brancos têm que fazer o seu próprio trabalho sujo'.

A ação de Munik é aceita, os fãs subiram uma tag no Twitter para mostrar que têm orgulho dela. Essa é uma prova de como esse tipo de racismo é bem-aceito na sociedade, afinal, ela não tem um negro acorrentado na cozinha sendo açoitado se não fizer as tarefas domésticas na hora.

Isso me lembra um trecho de Americanah onde ela fala como é difícil definir quem é racista hoje em dia, racismo é contra a lei, mas os racistas sempre vão encontrar formas sutis de continuar sendo o que eles são.

         



Os racistas pertencem ao passado. Os racistas são os brancos malvados de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis.
Esta é a questão: a maneira como o racismo se manifesta mudou, mas a linguagem, não. Então, se você nunca linchou alguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista. Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com famílias que as amam, pessoas normais que pagam impostos. Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra “racista”. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda.

- ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah,


Deixe um comentário

Obrigada por visitar meu espaço. Fico muito feliz com comentários, mas apenas sobre a postagem. Opiniões, elogios e críticas construtivas são bem-vindos.
Para outros assuntos, use o formulário de contato.