Viver em meio aos jovens me dá uma espécie de experiência científica sobre a sociedade contemporânea. Não que eu seja algum tipo de pessoa descolada que se dá bem com eles. Eu não me entendia com adolescentes nem quando eu era um deles. Pelo amor de Deus, eu passava os recreios na biblioteca. Era tão estranha que acabei sendo professora.
Todas as ironias do destino me levam a circular entre os adolescentes. Além de ser professora e portanto pobre, eu tenho que fazer o trajeto de casa para a escola em um ônibus escolar. Felizmente não são os meus alunos, nem da minha escola  nesse ônibus e eu posso observá-los sem que eles se comportem como fariam na frente da professora-pessoa-chata-que-não-transa-não-gosta-de-nada-e-é-mal-humorada (Como eles descrevem quase todos os honrados colegas sofredores dessa profissão).
Ontem, inclusive, um deles me passou uma cantada. Deus! Meu rostinho patrocinado pelo Renew e meu gosto por tênis e camiseta me fazem mesmo parecer uma adolescente normal entre eles. Claro, se alguém olhar direito vai ver que eu não tenho nada de normal. Ah, nem de adolescente.
Essa de parecer mais nova às vezes é doloroso, essa semana, em meio a uma conversa seríssima, a funcionária do banco me chamou de garota. Eu dei altos tapas nela com a minha imaginação, mas não fiz nada na real porque precisava mesmo do empréstimo. Mas tem coisas boas como todo mudo pode imaginar. É mais fácil se disfarçar entre diferentes classes etárias e ser um pouco tudo sem ser na realidade nada. Tênis e camiseta, sou adolescente, roupa social, sou adulta, mas quando eu começo a me expressar todo mundo vê que eu não sou nem desse planeta.
Hoje nesse ônibus, a galera estava na maior animação falando sobre uma garota ausente. Estava lendo um livro digital, mas tive que ouvir a conversa de tão empolgados que estavam. Resumindo, uma das meninas expôs a virgindade de outra no grupo do WhatsApp da escola. A moça virgem, agora apelidada de Cabacinho ( Cabaço, aqui em PE é uma fruta ou uma pessoa virgem ou o próprio hímen) não pode mais lidar com tamanha humilhação e saiu do grupo e vem faltando as aulas. Como ela pode sair de casa com toda a sociedade sabendo desse deslize? Como ela deixou isso não acontecer?
Quando eu estava no Ensino Médio há uns doze anos, meninas desistiam da escola quando ficavam grávidas e tinham vergonha de encontrar a gente na rua. As pessoas falavam " Fulana está perdida", desculpem, aqui é interior sem rrr, interior de PE, onde o pai tem um facão pra pegar quem mexe com a filha. Hoje é meio ao contrário. Não que seja ruim ter relacionamentos sexuais mais cedo, mas é ruim condenar quem não tem porque aí continua-se sem liberdade sexual. Não é liberdade se você não pode fazer ou se é obrigado a fazer.
Isso sem falar, que para os pais dessa menina, o normal é que ela seja virgem. Eu imagino ela mentindo pra os amigos falando que não é mais virgem. Depois falando para os pais que o que ela falou para os amigos é mentira, que na verdade, ela é virgem. Depois ela acaba transando e quando encontra o cara com quem quer casar talvez vai mentir de novo que é virgem. Depois nem ela mesma vai saber qual é a verdade.
E pouco importa a verdade, ou pouco deveríamos nos importar com a opinião alheia, mas vai falar isso para quem está vivendo a história...


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