Bonito, profundo e suave como o azul pode ser. Verdade que escolhi Dez coisas que aprendi sobre o amor pelo título e pela capa. Às vezes eu gosto de escolher assim sem nem mesmo ler a sinopse. Verdade que foi diferente do que eu pensava, mas também foi melhor do que eu esperava.
Alice e Daniel estão separados, cada um fazendo as suas listas de dez coisas e vivendo a sua vida. Ela não sabe que ele existe. Ele a ama mesmo sem conhecê-la, ele a procura em todos os lugares enquanto leva uma vida perdida pensando nos erros do passado, no que ele poderia ter feito para dar certo com a mão dela.
Ela viaja pelo mundo sem rumo porque nunca passou muito tempo imóvel em um lugar para sentir-se em casa. A mãe morreu quando ela tinha quatro anos deixando-a com um pai e duas irmãs com quem ela se sentia desloda.
De tanto procurar pelo nome Alice, Daniel acaba a encontrando em uma nota de jornal. Alice precisa voltar para casa para se despedir do pai que está morrendo de câncer. Ela carrega a dor de pensar que a mãe morreu por sua culpa, porque o acidente aconteceu quando a mãe ia buscá-la, mas na verdade, quando morreu ela estava em um caminho diferente.
Daniel carrega a culpa de não ter sido responsável, ele precisa encontrar Alice e falar a verdade que dará uma volta na vida dela. Talvez o final decepcione algumas pessoas, mas Daniel entende que às vezes amar é não fazer o que é preciso para você, mas o que é melhor para o outro.
É uma história simples e pequena, mas a forma que ela é contada é encantadora, a atenção nas cores, nas descrições, é tudo muito vivo nesse livro, é gostoso de ler. A autora mencionou que queria homenagear Londres, eu que não conheço, fiquei conhecendo um pouco. Gostei muito da caracterização dos personagens, eu tenho uma queda por essas pessoas perdidas, pessoas que moram na rua, que viajam a mundo sem destino, que não sabem o que fazer com a própria vida. Talvez eu me identifique Não sei. Pode ser em outra vida ou uma vontade íntima porque eu tenho uma vida muito chata e certinha.
Enfim, por ter gostado do estilo dos personagens e da escrita, eu gostei bastante e recomendaria a leitura a qualquer amigo que possa ler de mente aberta sem julgar essas pessoas porque eles me parecem muito humanos e humanos do tipo que eu gosto, do tipo que eu entendo.


Dados via Skoob:



Baseado em fatos reais 

Eu sou uma pessoa fracassada que chegou a certa idade sem a sonhada realização pessoal ou profissional. Eu trato todas as pessoas muito bem, convivo com muita gente de classes e raças mais baixas e trato todos bem porque eu não tenho preconceitos. 
Dito isso eu destaco que eu não tenho preconceitos, eu só não aceito uma superior com cabelo de bom bril, ela mal fala comigo e a convivência é mínima, mas eu posso julgar a falta de competência pelo jeito que ela lida com o cabelo deixando-o sem cuidados quando possui dinheiro suficiente para alisar. Incomoda muito ter uma superior com esse cabelo de arame enquanto eu aqui com meu cabelo bom ganhando menos do que ela. 
Eu nunca fiz comentários sobre a aparência de meus outros superiores, mas uma cabelo de bom bril na chefia chama a atenção. Há alguns anos ela estaria no lugar dela talvez lavando o meu banheiro, isso deve ser mais uma consequência das cotas que tiram todas as nossas oportunidades e dão tudo fácil para quem não merece.


Para variar um pouco, resolvi ler algo diferente do meu estilo, O símbolo perdido. Vamos lá. Robert Longdon é convidado para dar uma palestra em um evento para um amigo. Ele aceita o convite, não sabendo que está caindo em uma grande armadilha, parte de um plano macabro de um fanático que pretende ser transformado em algo como um deus do mal.
Ao chegar ao local, Robert já encontra a mão do amigo pregada em um suporte de madeira e tatuada com as primeiras pistas de um mistério que ele deve decifrar para o sequestrador e assim salvar a vida de Peter.
Apesar de ser uma questão que deveria ser importante apenas para os maçons, e de Robert acreditar que é tudo uma lenda, até a CIA está envolvida na figura da poderosa agente Sato. Robert tem a missão de driblar a CIA para decifrar vários códigos na pirâmide que Peter lhe confiou para guardar e no cubo que completa a pirâmide.
Cada resposta leva  a mais perguntas que requerem mais conhecimentos de línguas antigas, rituais sagrados e raciocínio lógico combinado a fatos e figuras históricas que tinham relações com a maçonaria.
Com a ajuda do maçom Bellamy e a irmã de Peter, Katherine, Robert passa momentos apreensivos e agitados embora não se sinta plenamente capaz de decifrar os códigos ou não sabe se pode confiar no monstro que aguarda a descoberta desse segredo que ele acredita lhe dará todos os conhecimentos que precisa para ser um Deus.
O suspense do livro é muito bom, mesmo embora algumas vezes é monótono quando os personagens param para dar alguma longa explicação aos outros, ou pior, o padre resolve que é hora de aumentar a tensão pedindo para Robert passar a mão na pirâmide e descobrir sozinho alguns sinais. A minha impaciência diz: querido, se você já sabe fale logo para ele. Vocês estão correndo contra o tempo, a CIA vem aí, o Peter está morrendo, má hora pra brincar de adivinhação.
Eu li o livro em um momento em que eu queria ação. Talvez por não ter me ligado muito aos assuntos de mistério e maçonaria, eu acabei não curtindo tanto a leitura que muitos me recomendam a tanto tempo. Porém foi uma leitura que valeu a pena, me distraiu bastante e o final é bem legal, lembra bem O segredo.


Eu já sou bem crescida, mas sempre gosto de reler um conto escrito para uma menina de quinze anos. Eu sempre vou ter quinze anos quando o leio porque sempre vou me identificar, o medo do mundo nunca passa, assim como a fascinação por ele. Desde muito criança, quando eu li Alice no país das maravilhas, eu me identifiquei com essas sensações. Assim como o livro é maravilhoso e deve ser lido por crianças de todas as idades, assim é esse conto de Paulo Mendes Campos. É com esse sentimento que eu quero começar o ano.

Para Maria das Graças - Paulo Mendes Campos

Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é, o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura, acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca. Nem o papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?” Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrastes essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira. A sozinhez (esquece essa palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice versa, isto é, fechar uma porta bem aberta. Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo. Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes ao dia: “Oh, I beg your pardon!”. Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosse eu?”. Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não sabe quem venceu. Se tiveres que ir a algum lugar, não te preocupes com a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste. Disse o ratinho: “Minha historia é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance.” Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só um jeito de contar um vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos, irremediáveis, Maria. Os milagres acontecem sempre na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrario do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. E escuta essa parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo como hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma maquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar em disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado Maria, com as grandes ocasiões. Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”. Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor, Maria da Graça.

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