Primeiro eu li Sejamos todos feministas, depois Americanah e agora li Hibisco Roxo. Estou avançando lentamente na literatura de Chimamanda. Mesmo com essa pequena experiência eu já posso dizer que Chimamanda é versátil, ainda falando de temas parecidos e é entretenimento, mesmo sendo engajada.
Hibisco Roxo é narrado pela jovem garota Kambili. Ela mora com os pais e o irmão em um rico lar onde a ordem é imposta pelo pai, um católico fanático. Kambili e o irmão Jaja cumprem uma dura rotina religiosa, têm horários fixos para tudo e sofrem consequências pesadas para qualquer mínimo ato que o pai considere pecado.
É um mundo e uma forma de viver totalmente inimaginável para alguém nos dias de hoje. Mas isso acontece na Nigéria sob os efeitos da colonização branca. O pai de Kambili rejeita as próprias tradições e abandona o pai idoso na miséria por ele ser um pagão.
Comer na hora errada, estar doente demais para visitar o padre, não conseguir o primeiro lugar na escola ou guardar um quadro do avó geram punições como espancamentos severos requerendo internação médica, ter água fervente jogada nos pés em uma banheira, e a mãe e as crianças aceitam tudo pacificamente pois aprenderam que essa é a vontade de Deus.
Kambili e Jaja apenas conhecem a liberdade e aprendem a sorrir em uma visita à casa da tia onde os recursos são poucos, mas a felicidade habita.
Na casa da tia Ifeoma e com os primos, Kambili aprende também sobre vários aspectos do país na educação, na política, enquanto o próprio pai sofre perseguição por ter um jornal.
Ela também conhece o padre Amadi que apresenta um catolicismo diferente do pregado na igreja rica e por seu pai. Amadi prega um Deus de alegria e que compartilha amor e simplicidade e não dor, privação e punição.
Assim como os raros hibiscos roxos e as outras flores vão florescendo ao passar da narrativa, o mesmo vai acontecendo com Kambili, o irmão e a mãe. A dor vai se transformando em entendimento e crescimento, o sofrimento e medo de perder uns aos outros se transforma em força capaz das medidas mais drásticas.
É um romance lento, mas com acontecimentos muito fortes, a delicadeza fica por conta da personagem principal, tão exposta aos castigos do pai e tão protegida e inocente sobre o mundo real. Kambili desabrocha como os hibiscos e descobre novos sentimentos, novos sofrimentos e alegrias.