Foi um longo sonho ou estado de entorpecimento. Meu departamento havia sido parcialmente esquecido pelo Estado. Digo parcialmente porque o sistema ainda se encarregava de fazer os nossos pagamentos e verificar a nossa frequência ao trabalho. Ele só não se encarregava de nos dar funções. De forma que passávamos o expediente sem ocupações e nos ocupávamos de manter a ordem no local. 
Nos tornamos gordos infelizes e gastávamos o tempo livre analisando a vida um do outro secretamente, ao menos na teoria, porque todos sabíamos o que o outro fazia contra cada um. Não que gordo seja infeliz, gordos devem ser as melhores e mais realizadas pessoas do mundo, mas nós comíamos por ansiedade e por não ter o que fazer e também para evitar falar uns com os outros. 
Cada falta deveria ser meticulosamente registrada, embora não houvesse nenhum membro superior na hierarquia interessado em verificar. Nos tornamos os algozes um do outro, nos odiávamos cada vez mais. A  impressão era que usávamos o tempo livre para treinar e aprimorar formas de agredir um ao outro, formas de mostrar superioridade, maneiras de responder a uma provocação e acima de tudo manter sempre um sorriso irônico no rosto.
Daqueles sonhos que você não consegue lembrar com clareza nem o final.


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