Eu estava passeando pelo blog Pétalas de Liberdade quando vi uma postagem adorável, uma tag literária dessas que eu tenho prazer em responder, mesmo sem ser convidada apenas pelo prazer de escrever sobre minhas preferências literárias.
Aí estão minhas respostas, não vou indicar ninguém até porque sou tão antissocial que removi o formulário de comentários por enquanto.

     1 - Qual o primeiro livro que você leu na vida? (Não vale livro didático, nem livro infantil ilustrado.)
     Eu acho muito difícil lembrar dessas coisas porque eu comecei a ler muito cedo, mas os que eu me lembro de ler são " Alice no país das maravilhas" de Lewis Carrol e "As frangas" de Caio Fernando Abreu. Curiosamente os dois livros eram da minha prima, eu só tinha os livros da escola, na casa de minha tia havia vários livros largados, aos quais ninguém dava atenção e eu adotei esses dois.

     2 - Quem ou o que te incentivou a ler?
     
Eu nunca fui realmente incentivada, talvez o ambiente escolar tenha me inspirado, juntamento com o fato de que eu era uma menina muito quieta de poucos amigos e em casa sempre havia briga pela televisão,rs. Então, eu me refugiava nos livros, depois que minha mãe percebeu isso, ela me deu alguns que eu devorei por um bom tempo, mas eram romances melosos e eu logo passei aos romances policiais das bibliotecas públicas da vida.

     3 - Existe algum livro que você deseja muito ler/ter, mas ainda não conseguiu?
     
A pergunta poderia ser o contrário. Existe algum livro que eu não quero ler? São tantos que comecei a fazer uma lista de desejos como página extra do blog. Alguns: " O amor nos tempos do Cólera", " O coração é um caçador solitário", "Guerra e Paz", todos de Jane Austen, todos de Lygia Fagundes Telles, todos de Alice Walker, todos de Caio Fernando Abreu, etc,etc,etc. Se eu puder ter outra vida, quero nascer rica para me dedicar apenas à leitura e escrita.

     4 - Qual livro você leu mais de uma vez ou pretende reler?
    
Eu pretendo reler muitos livros, certamente A cor púrpura será um deles. Eu reli Alice muitas vezes e  mais recentemente eu reli As meninas ainda mais vezes, inclusive ele foi objeto de estudo do meu TCC. Antigamente, quando eu era mais pobre, e tinha menos livros, eu relia mais,rs,rs. Mas isso era ótimo porque foram os livros que eu mais aproveitei, acho que é preciso reler mais e ler menos, acho que foi Nelson Rodrigues que disse isso.

     5 - Conte um fato curioso relacionado a algum ou a todos os seus livros.

  O que seria um fato curiosos? Eu amo livros de sebos, amo ver assinaturas, dedicatórias e marcações em livros, mas isso é mais sobre mim. Não tenho um fato curioso sobre meus livros.

     6 - Qual o livro mais caro que você já comprou? (não vale didático nem saga/trilogia)
    
Eu nunca liguei para edições de luxo ou algo assim, nem sou chegada em literatura muito comercial. Na verdade, eu não compro muitos livros e quando compro, muitas vezes é no sebo. Os que comprei para a faculdade com certeza foram os mais caros, mas não vale, então acho que, por incrível que pareça, o mais caro foi A culpa é das estrelas que foi uns R$ 22,00.

     7 - Qual seu escritor favorito, que você sempre indica?

Eu sempre falei de Lygia, mas vamos variar um pouco, vamos de amor novo, Alice Walker, ainda é nova para mim, eu demorei muito para começar a ler, mas hoje eu indico A cor púrpura para muita gente.

     8 - Qual dos livros que você já leu que mais se identificou com a história?

Histórias não me ajudam na identificação, acho que me apego mais pelos personagens ,gosto de Lorena, de As meninas porque ela é frágil e sentimental como eu, gosto de Virgínia de Ciranda de pedra porque ela é solitária como eu, mas se é pra escolher uma história, eu escolheria O feijão e o sonho de Origénes Lessa. O protagonista vive o dilema de não conseguir ter uma vida prática e profissional bem sucedida porque é um sonhador e gosta de escrever.

     9 - Se pudesse ser um personagem de livro, quem você escolheria?
     
Acho que eu seria Otávia de Ciranda de Pedra, ela é linda, rica e uma pessoa bem-resolvida que consegue fazer o que gosta e tem vontade.

     10 - Qual o melhor livro que você já leu?

Essa pergunta é tão injusta porque vários livros são os melhores em dado momento, eu poderia pular, mas eu vou dizer Dom Casmurro, é um livro tão singelo e sem intenções e, no entanto, é brilhantemente intrigante, doce e amargo na medida certa para atrair leitores por muitos e muitos anos.


Tenho certeza que minha admiração por uma pessoa tem relação com a capacidade que ela tiver de me provar que estou errada. Gosto de que me provem que estou errada, mas sutilmente, de preferência adivinhando os meus pensamentos e concordando comigo. Sim, concordando porque aí poderei dizer que  errada está a outra pessoa.
Quero dizer é que é evolução do homem não me fez nada bem. Digo isso porque, em algum momento, a evolução favoreceu os cautelosos, os medrosos mesmo. Aquele que foge do perigo sobrevive.
Séculos de evolução podem ter originado pessoas tão cautelosas a ponto de terem medo até de admitir isso.
Estava eu no ônibus cautelosamente ouvindo músicas para evitar conversas de desconhecidos quando senta ao meu lado uma senhora que desconhecia esse truque e sem mais começou a me falar em sua tristeza ao perder o nosso ilustre político em um acidente aéreo no momento em que ele mais se destacava.
Depois de concordarmos no quanto o ocorrido foi lamentável, ela me falou sua opinião sobre as ambições humanas, que ele já tinha um grande cargo como governador e estaria vivo se não tivesse saído de Pernambuco e que as pessoas deveriam se conformar com menos.
Conscientemente, eu discordo disso, assim para evitar acidentes não teríamos evitado nenhum meio de transporte, melhor, nem sairíamos das cavernas e morreríamos de velhice ou doenças.
Nem preciso falar o quanto isso seria estúpido, nossos avanços, entre outras coisas, aumentaram a expectativa de vida.
Entretanto, o meu maldito inconsciente, dominado por algum resquício da Idade da Pedra me faz agir exatamente segundo a filosofia da minha companheira de viagem. Algo lá dentro grita eternamente que devo fugir, que algum perigo espreita, que pessoas e ocasiões parecem ameaçar constantemente.
Talvez isso também tenha uma parcela de verdade. Então vem outro resquício, dessa vez espiritual? esotérico? falando que o certo é se jogar porque as evidências mostram que o que tiver que ser será.
Maktub. Estava escrito.
Ou faça o que tiver vontade porque a vida já é mesmo um desastre. Pequenos ou grandes desastres acontecem todos os dias, estando nós parados ou em movimento, tentando realizar sonhos ou vivendo uma vida mediana. O maior desastre é não tentar aproveitar o intervalo entre um e outro.


Sempre me pergunto se já nascemos melancólicos ou é uma característica que surge depois de algum trauma. Eu já disse mil vezes que eu amo e entendo as almas melancólicas, problemáticas. 
Alguns personagens de Lygia são assim,os que eu mais gosto. Ciranda de pedra é um livro assim, a solidão de Virgínia é assim. Nada mais triste que estar sozinha em qualquer ambiente. Para algumas pessoas, o mundo é uma ciranda de pedra, não adianta tentar entrar, tentar fazer parte. Virgínia só é feliz na sua imaginação, quando está em casa com a mãe perturbada imagina como seria bom estar na casa do pai com as irmãs Bruna é Otávia, com o vizinho Conrado e os outros, quando está na casa de Natércio sente-se isolada, principalmente depois que a mãe está morta e ela descobre que o padrasto é seu verdadeiro pai.
Na infância de Virgínia, há a presença de Luciana, essa não é a história de Luciana, mas eu quero falar dela também. Eu simpatizo muito com ela. Luciana é a empregada de Daniel, verdadeiro pai de Virgínia, e apaixonada por ele. Ela é mestiça, mulata, e acredita que esse é o motivo de não ser amada. Ela confessa que tentou disfarçar seus traços negros para que um dia Daniel pudesse amá-la e andar com ela sem envergonhar-se. Mas Daniel ama  Laura, mãe de Virgínia,  talvez não por ela ser branca, mas por eles terem uma história tão forte que o faz preferir o suicídio a viver sem ela. Luciana amou e serviu Daniel, e até Virgínia e Laura, mesmo querendo odiá-las por terem o amor que  ela queria.
Eu gostaria de saber como terminou Luciana, mas não é a história dela. E eu fico agradecida a Lygia por esse jeito de contar uma história mesmo sem parecer que está contando. Temos um registro do contraste entre a vida de duas mulheres que são tratadas de formas tão diferentes pela sociedade, por suas origens e cor.Pelo pensamento de Virgínia temos o registro do que as pessoas pensavam sobre ser negro e o livro foi publicado em 1954.

E pensou nas flores dos jardins do céu, elas deviam ser assim também, tão delicadas... Todas as manhãs eram regadas pelos anjos louros que passeavam de mãos dadas, em bandos. Todos louros? É, todos louros, até Isabel que morrera preta mas que no céu virou branca, muito mais bonito anjos só brancos, podiam soltar os cabelos até os ombros, como Otávia. Ser preto era triste e no céu só tinha que ter alegria. (Virgínia)


Voltando à Virgínia, quando ela finalmente vai morar com Natercio é que descobre que Daniel é seu pai biológico, que ele a amava tanto que preferiu renunciar para que ela vivesse com conforto e na companhia das irmãs, no entanto tudo que ela encontra é indiferença e frieza. Tudo continua impenetrável. Ela pede para ficar em um colégio interno e não sai de lá nem nas férias. Eu sempre achei que a tristeza dos ricos é muito insignificante, você sempre é menos triste amparada por dinheiro, bons lugares para morar e estudar, oportunidade de viajar quando bem entende. 
Na maioria desses livros que leio há histórias de pessoas que podem curtir suas depressões, seus problemas internos, traumas, não precisam trabalhar, podem viver de herança ou fazer arte sem pretender vender. Mas Lygia é tão boa em expressar os sentimentos que entramos na mente de Virgínia e entendemos o seu desespero por aceitação. Nem na escola ela é completamente aceita por ser filha de pais separados. Os personagens de Lygia são tão reais, com seus problemas, defeitos e qualidades que é impossível não se identificar ou não se sentir na presença viva desse ser de papel.
Ela passa anos para entender aquelas pessoas, Natércio, Bruna e Otávia, os vizinhos Afonso, Letícia e Conrado, a quem ela sempre amou e sempre pensou que amava Otávia, cada um tem seus próprios dramas, nem mesmo o laço entre eles é algo bom para que ela pudesse desejar tanto fazer parte.
O problema com Virgínia, e com os sonhadores em geral, é que a realidade nunca é tão boa quanto o que imaginaram, não havia união, felicidade, harmonia, todo o tempo em que ela passou sonhando em fazer parte dessa ciranda foi perdido.

Frases:


Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar

em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher as rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas. A música — acrescentou, detendo-se ao ouvir os sons distantes de um piano num exercício ingênuo. — Este céu que nem promete chuva — prosseguiu. — Aquela estrelinha que está nascendo ali... Está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os Reis Magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos. Não faz nada. Apenas brilha. Ninguém repara
nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a Beleza. No inútil também está Deus. (Conrado)


 “Quero entrar na roda também!”, exclamou ela apertando as mãos entrelaçadas dos anões mais próximos. Desapontou-se com a resistência dos dedos de pedra. “Não posso entrar? Não posso?” (Virgínia)


“não fique assim com essa mentalidade de donzela folhetinesca, não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora.

Mas passa.” (Otávia)

 “Não me peçam nunca fidelidade. Por que fidelidade se todos mudam tanto e tão rapidamente? Mas se nem a mim mesma consigo ser fiel. Seria bem divertido fazer uma pilha dessas Otávias todas tão contraditórias e tão desiguais, que não me reconheço em nenhuma delas” (Otávia)

“Seu cego! Eu te amo, há dois mil anos que te amo, será que ainda não descobriu isso? Eu te amo, vamos, diga o que quiser, mas pelo amor de Deus, diga alguma coisa!”. (Virgínia)

Um dia qualquer, no meio de um pensamento, de uma palavra, você descobrirá de repente esta coisa extraordinária: cresci! O que não vai impedir que o acaso ou Deus, dê a isto o nome que quiser, de vez em quando a governe como uma casca de noz no meio do mar. Mas reagirá de modo diferente, está compreendendo? (Letícia)


 Então você ainda gosta dele? Terá que esquecer, Virgínia. Amar a pessoa errada não é das melhores coisas que nos podem acontecer e acontece com tanta frequência. Dante se esqueceu desse círculo no seu inferno, o dos rejeitados. (Letícia)

Hei de me guiar por alguma daquelas estrelas que me dirá onde devo descer. — E noutro tom: — Ah, Conrado, ao menos isto eu quero, já que é preciso aceitar a vida, que seja então corajosamente. (Virgínia)

Eu gosto de história, gosto de quase tudo que leio, mas de poucos livros posso dizer que foi uma verdadeira companhia, os sonhos bobos, os devaneios, os raros momentos de coragem decisiva, tudo em Ciranda de Pedra vai me deixar saudades.

— Estamos sempre dizendo adeus, não, Virgínia?



Eu quis fugir de mais um domingo preguiçoso, aliás os dias não são preguiçosos, nós é que somos. Levantei cedinho sem nenhuma lamentação por 5 minutos a mais. A previsão de chuva derreteu-se sob o sol escaldante a brisa fresca. 
Uma temeridade das pequenas cidades é que você sempre vai encontrar os inimigos, mas não nesse dia. A indiferença das ruas vazias nas manhãs de domingo é deliciosamente receptiva, você pode sair de pijama, ler na calçada, dançar no meio-fio, as ruas observam silenciosamente, sem nenhum julgamento.
 Parreiras e bananeiras também não te julgam, fornecem a sombra necessária para o descanso no passeio. As árvores te servem verdemente felizes com as presenças humanas, enquanto pequenas ervas daninhas tentam impedir a invasão. A natureza mostra sua superioridade.
 Ficamos felizes, ficamos simples, só precisamos do brilho do sol, do afresco e do canto dos pássaros para viver. Podia ser sempre assim. 

Mas, no dia a seguir, a mente implora para voar para outro lugar, outras paisagens capazes de preencher o seu vazio pelo tempo que o encanto durar.