Não é sempre que eu gosto de tags, mas algumas realmente merecem ser respondidas. Essa eu encontrei no blog Universo Adolescente e resolvi copiar na cara-de-pau-porque-ninguém-me-convidou.. A TAG foi criada pelo canal Turtle Sympathy e traduzida pelo Leitora Voraz.



1. Expecto Patronum: Um livro relacionado a boas memórias da sua infância




É muito difícil escolher porque quase todos estão relacionados a boas memórias, mas esse foi o primeiro que me veio a cabeça porque lembra a infância. É um dos primeiros livros que eu lembro de ter lido e eu fiquei tão encantada com Caio Fernando Abreu, com o estilo que ele escreve, era como se estivesse conversando comigo, ele foi meu amigo de infância, imaginava até a voz dele, muito doce e jovem.

2. Expelliarmus: Um livro que te pegou de surpresa
 


Pensei nesse porque ele fala sobre a cultura japonesa, faz muitos anos que li, estava doente e sem nada pra fazer e a bibliotecária da cidade escolheu este pra enviar pra mim. A história é sobre Monica, uma descendente de japoneses que não tem muito sucesso no Brasil e resolve se aventurar na terra dos avôs. Ela não tem muito orgulho de sua descendência porque não conhece sua cultura, mas aos poucos vai se adaptando e tomando gosto pela vida e pela cultura do Japão. Foi surpreendente porque eu também nunca tive interesse pelo Japão, me parecia um país de pessoas meio frias, mas desde esse livro eu passei a vê-los com outros olhos.


3. Prior Incantato: O último livro que você leu



Nem vou escrever mais nada sobre ele porque já escrevi aqui e aqui.


4. Alohamora: Um livro que te apresentou a um gênero que você não tinha considerado antes.



Eu encaixaria A culpa é das estrelas na categoria livros-melosos-adolescentes, nem pensaria em ler, mas a curiosidade fala mais alto e eu gostei da história. É simples, e podem chamar de clichê, mas é empolgante, tem um humor negro interessante e personagens realistas.


5. Riddikulus: Um livro engraçado que você leu



Apesar de ter escrito coisas mais sérias sobre O diário de Bridget Jones, eu acabei me divertindo muito e me identificando com várias situações. Tem postagem sobre ele aqui.


6. Sonorus: Um livro que você acha que todos deveriam conhecer



Sempre que me perguntam sobre isso, eu acabo escolhendo o mesmo livro, Viagens de Gulliver, porque ele me parece tão atual e tenho a ingenuidade de acreditar que se as pessoas pensassem mais no quanto a humanidade tem sido miserável para com o seu semelhantes, talvez algo mudasse no mundo, talvez nós pudéssemos mudar e construir uma nova civilização próxima do que são os Houyhnhnms. Postagem sobre ele aqui.



7. Obliviate: Um livro ou spoiler que você gostaria de esquecer ter lido.


Eu não gostaria de ter lido que o Augustus morre em A culpa é das estrelas, estava procurando opiniões e acabei lendo.


8. Imperio: Um livro que você teve que ler para escola


Curioso é que eu não consigo lembrar de uma livro que eu tenha sido obrigada a ler na escola. É claro que tínhamos aulas de literatura, mas estudei em uma escola pública onde não havia muitos recursos e não podiam fazer tantas cobranças e o máximo que lembro de ter sido obrigada a ler foi uma apostila de literatura com alguns resumos.
Então, vou responder segundo a faculdade onde felizmente fui obrigada a ler muitos livros.


Uma das matérias que mais gostei na faculdade foi uma eletiva, Produção Literária do Nordeste. Foi só aí que descobri muitos clássicos escritos por nordestinos e entre os trabalhos que mais gostei de fazer foi um sobre Menino de Engenho. Infelizmente ainda não li todos os livros do ciclo, mas o farei em breve.

9. Crucio: Um livro que foi doloroso para ler



Dom Casmurro porque foi meu primeiro contato com o Realismo e foi chocante porque Machado construiu uma história e personagens envolventes. Bentinho é tão doce e inocente no começo da narrativa que é doloroso ver seu processo de transformação em Dom Casmurro, ver no ponto em que ele chegou, de não se importar mais com as pessoas. A forma como ele relata o fato das mortes de Capitu e do filho é de gelar o coração. Parece que ele já está morto.

Se só me faltassem os outros, vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
- Dom Casmurro


10. Avada Kedavra: Um livro que pode matar (interpretação livre)

Vou fugir do terreno da Literatura, qualquer livro de Administração e Gestão de Pessoas é de matar, de raiva, de tédio.




Esse livro foi mais um dos que eu não tive tempo de ler na faculdade, mas me toquei pela forma que meus colegas apresentaram um seminário sobre ele, foi diferente, eles estavam envolvidos, emocionados ao falar do enredo e eu sabia que tinha que ler. O personagem principal dessa história nunca revela seu nome. Porque ele é invisível, ou o fizeram acreditar nisso, numa invisibilidade, como uma total falta de importância e uma forma de lutar. Como negro, de origem pobre, ele não é absolutamente ninguém. Logo no começo de sua jornada, ela ainda não sabe disso, aliás, ele nem tem consciência da anormalidade que é os negros não serem ninguém diante dos brancos.
No Sul dos Estados Unidos, não muito tempo depois da escravidão. Ele acha que precisa fazer tudo certo, estudar, ser esforçado, mostrar aos brancos e aos negros poderosos que ele é diferente dos outros negros

Eu era ingênuo. Estando em busca de mim, perguntava a todos, menos a mim mesmo, as perguntas que eu, e só eu, poderia responder.

Esse homem invisível aceitou ser humilhado por muitos homens brancos para conseguir uma bolsa na Escola, ele passa por muitas situações constrangedoras, sempre calmo e de cabeça baixa. Na escola, passa a ter uma grande admiração pelos negros que conquistaram o poder, e assim como eles, pensa em um dia ter um bom cargo e renegar as suas origens.

(...) ele era o exemplo vivo de tudo o que eu almejava ser: influente junto aos homens ricos de todo o país, consultado a respeito de assuntos de interesse da raça, um líder do seu povo, dono não de um, mas de dois Cadillacs, de um bom salário e de uma esposa suave, bonita e de pele mais clara.

Mas mesmo fazendo tudo como mandavam, ele acaba tendo azar, acaba não agradando e sendo expulso. Ainda pensando que é o único culpado por sua falta de sorte, vai para o Norte conseguir emprego para poder voltar à Escola. Logo na chegada, fica deslumbrado com a liberdade que os negros têm de andar entre os brancos, de não precisar ficar em pé ou na parte de trás no ônibus, de poder andar encostado a mulheres brancas.
Um dia, no entanto,ele vê um casal sendo despejado, um casal de idosos negros. Ele não pretende envolver-se com a situação, não quer pensar que aquelas pessoas têm a ver com suas raízes. Observando os móveis do casal, que são jogados na rua, ele vê documentos da época da escravidão, pensa no quanto essas pessoas sofreram. A multidão em volta quer fazer uma rebelião e impedir o despejo, ele tenta se colocar contra isso, sua razão fala para incentivar a ordem, ele foi educado para obedecer e não questionar. Mas algo mais forte controla suas palavras, ele discursa e leva as pessoas a refletirem, como aquelas pessoas chegaram aos mais de 80 anos, trabalharam tanto e não têm absolutamente nada, nem ao menos um teto para morar? É o momento em que ele começa a ter um pouco de consciência, que se os negros estavam naquela situação não era por incapacidade ou incompetência, ou qualquer tipo de inferioridade, mas sim porque havia todo um sistema os impedindo de progredir.

Não me envergonho de meus avôs terem sido escravos. Só me envergonho de um dia ter sentido vergonha disso.

O que um velho escravo podia ter a ver com o conceito de humanidade? Talvez fosse algo que Woodrige tivesse falado em suas aulas de literatura, lá na escola. Eu ainda o via, com toda a nitidez, semi-embriagado com as próprias palavras,cheio de empáfia e exaltação, andando de um lado para o outro na frente do quadro cheio  de citações de Joyce, Yeats e Sean O’Casey; magro e nervoso, com suas passadas irrequietas, como se pisasse numa corda bamba de significados, na qual nenhum de nós ousava se aventurar. Podia ouvi-lo ainda: “ O problema de Stephen, tal como o nosso, não era, na verdade, o de recriar a consciência de sua própria raça, mas o de criar os traços não criados do seu próprio rosto. A nossa tarefa é a de nos tornarmos individuos. A consciência de uma raça é dádiva daqueles indivíduos que sabem ver, avaliar e registrar... É criando a nós mesmos que criamos a raça; e então, para o nosso grande espanto, teremos criado algo muito mais importante: teremos criado uma cultura.
Ele é escolhido para participar de uma organização, fazem-no acreditar que está trabalhando pelos humildes. Faz palestras, atrai multidões para uma causa,  ele é o mais carismático e não entende quando os colegas o barram sob acusações de estar se promovendo com o nome da organização. É afastado do centro das ações e quando volta, está tudo mudado, muitos abandonaram a causa e ele demorar pra juntar as peças do quebra-cabeça. A organização pra ele, pregava a união entre negros e brancos em nome de um bem maior. Enquanto isso, há a presença ameaçadora de Rás, o exortador, uma figura estranha que está sempre a acusar os membros da organização de traidores dos negros e incentivando que negros e brancos não podem estar juntos pela mesma causa.
Nosso protagonista é sacudido pela morte de um dos maiores membros da Confraria, Clifton, assassinado por um policial por vender bonecos na rua. Abandonado pela organização, ele reúne aliados entre os populares para um protesto, mas é duramente censurado pelos líderes. Nesse momento, ele começa a acordar para a realidade, sabendo que o amigo foi assassinado por ser negro e vendo os líderes da confraria se omitindo e abandonando a população que ele havia conquistado e atraído.
- Ele foi morto por ser negro e por ter resistido. Acima de tudo por ser negro.
O irmão Jack franziu o cenho. – Lá vem você de novo, montado no cavalo de batalha da questão racial (...)
- Estou aqui montado na raça que me obrigaram a montar. Quanto aos bonecos, as pessoas sabem que tanto fazia, para os tiras, o Clifton vender aquilo ou partituras. Ou bíblias ou pães. Se ele fosse branco, estaria vivo. Ou então, se tivesse se deixado espezinhar...

O discurso do irmão Jack e outros continua ecoando com outras palavras em quem prefere afirmar que o racismo não existe ou vai parar de existir quando não se falar mais nele e ignorar suas consequências.
Mas nosso Homem Invisível descobre o que ainda hoje é a realidade, ele não pode ser apenas um homem, sendo um homem negro é obrigado a abraçar uma causa, a lutar por uma causa. E que não é sob a liderança de homens brancos que essas causas vão ser defendidas. A Confraria se revela uma armadilha, junto com Rás,ele foi usado para atrair uma multidão de negros para iniciar um conflito racial que só resultaria no derramamento do sangue negro.
Ele tentou de todas as formas, primeiro obedecendo, depois questionando, em seguida subvertendo, tudo pra ver que continuava sendo um ninguém gerando um conflito com o leitor possivelmente inserido em uma sociedade que prega os valores de esforço individual e meritocracia. Talvez nem todos alcancem o lugar que merecem.

Rendido e desiludido, ele aceita que sempre foi movido por ilusões, de ir pra uma faculdade, de tornar-se alguém importante, destacar-se entre os negros, ser útil à humanidade, tudo isso foi-lhe negado, restando apenas a opção da invisibilidade.


Nós que não escrevemos romances, nem livros de História, nem livro nenhum. E nós?
Ralph Ellison.

Das várias leituras que eu posso fazer disso, penso no meu umbigo, no caso, no nosso.
Quem sou eu na História? Quem somos nós? Pra quem importa saber de nós?
Esta semana com a greve da PM, alguns jornais da televisão mencionaram Recife. Uma garota no Twitter lembrou: 'Se fosse em São Paulo, a Globo estaria dando destaque e fazendo chamadas a cada meia hora. '

Passamos a vida lendo, assistindo a história dos outros. Assistimos às novelas do Sudeste, copiamos um modo de vida, sabemos mais das notícias de longe que de nossa cidade.
Ainda esperamos que outros contem a nossa História.

Descontextualizando, parafraseando...
E nós que não lemos nossos romances, nem nossos livros de História? E nós?


Todo mundo tem um livro que gostaria de ler pra todos os amigos, eu tenho vários. Que eu leria, indicaria, compartilharia trechos no Facebook. Não sou muito boa com fotos de livros, mas é praticando que se aprende,nem tenho edições de luxo, mas acho que o conteúdo é o mais importante. Esse livro foi fruto de estudo na minha turma e não tive tempo de ler na época, por isso estou lendo agora. Em breve, postarei mais sobre minha leitura.











Homem invisível-Ralph Ellison.


Agarro-me à mochila como se ela fosse o meu mundo, minha mãe, uma amiga, alguém que pudesse me abraçar. Agora sou eu, ela e o fardo que pudermos carregar. Eu nunca estive sozinha, mas na verdade, eu não tenho ninguém. Ninguém que possa me defender de mim, ninguém que possa entender o meu medo, a minha profunda angústia. Eles podem me confortar, me encorajar, mostrar como está tudo bem. Podem me ouvir até estourar os ouvidos, mas nunca vão provar do meu medo e da minha vontade.
Eu posso apenas ficar parada olhando a chuva, olhando as pessoas se atropelarem desesperadamente pra não perder o metrô.Acho que alguém caiu na escada e foi pisoteado, há um inicio de confusão.
Eu faço parte disso? Agora estou tão perdida dentro de mim que me isolei do mundo. Posso perder desse, estou me organizando. São alguns minutos como quem olha pra chuva, mas olho dentro de mim.Eu tive uma vida pra olhar pra mim, mas estou sempre mudando e sempre tenho novidades.
Não posso mais me perguntar o que faz sentido, o que vale a pena. Não tenho o que perder, algumas pessoas têm nome, herança, ocupação, pra onde ir, onde ficar, eu tenho uma mochila e tenho que viver. 
Tenho uma coleção de incertezas e um bocado de medo de errar.
Encaro as pessoas que passam apressadas, tem tanta coisa sobre elas que eu queria saber, mas nenhuma pergunta capaz de traduzir o que eu realmente quero saber, só posso observar e sentir suas vibrações. Elas estão repletas, não é bem essa a palavra, mas serve. Estão preenchidas, como eu gostaria de estar.
Em breve, eu estarei repleta de tudo, menos de mim. Às vezes, preciso me esvaziar de mim pra ficar mais leve. Então, eu vou estar no mundo e fora de mim, vou rir com minhas amigas, vou estar acompanhada e reconhecer que tudo vai ficar bem, eu sempre fiz parte disso tudo. Foi só um momento de dispersão.





Saiu da escola no meio do dia, o sol ardente fazendo-lhe suar a ponto de sentir-se derretendo.Os longos cabelos alisados enrolando cedendo à umidade, sua praticidade capilar indo embora, implorando por mais uma escova.Assim como seu cabelo toda ela tenta se modificar, se adequar à situação, a um certo padrão que todas as pessoas devem seguir para serem normais, iguais e felizes. Elizabeth, professora de Língua Inglesa, embora ame mesmo a Literatura, a qual muitas vezes condena por tê-la moldado a ser uma pessoa tão sonhadora. Herdou da mãe os livros e a paixão por Jane Austen.  

Os seus alunos não são como imaginava, a escola não é a que foi preparada para trabalhar. Todas as ideias de transformação que aprendeu na faculdade foram guardadas junto com os livros pedagógicos que só servirão se precisar fazer mais alguma prova. Ela pensou que seria uma professora como o do filme Sociedade dos poetas mortos, mas segue as regras, pois teme ser demitida e precisa pagar as contas. Já esqueceu quando foi que desistiu de ter ideologias, algumas pessoas nasceram para mudar o mundo, outras não conseguem mudar nem a própria vida. Por que se importar? O máximo que pode fazer é se acostumar com a situação e tentar fazer o máximo do que esperam dela.

Em meio a práticas tradicionais, ela se sente em algum lugar do passado, alguma escola interna para freiras, falta a palmatória para harmonizar o quadro. Em um livro, isso seria tão romântico. Nos livros que aprendeu a gostar de ler onde tudo é distante e sublime. 

O motorista do ônibus corre tanto que o livro que abriu foi parar do outro lado. Antes de recuperá-lo se pergunta o que aconteceu com a gentileza das pessoas. Depois de mais um grande sacolejo, resolve desistir de ler e de pensar. Observa a pria de Boa Viagem, poucas pessoas na orla, todo mundo tem tanto o que fazer,o mundo ainda é tão lindo, só falta o tempo para desfrutar.

Uma semana inteira esperando a semana acabar. Um sábado inteiro arrumando a casa, se arrumando, organizando as contas, se organizando, esperando o sábado acabar. Domingo o namorado quer ver filme de terror, vão ao cinema mais cedo porque depois tem o futebol. Ele trabalha a semana inteira, estuda à noite, não pode perder o futebol no domingo. 
Um domingo inteiro pedindo para a segunda-feira não chegar. No fim da noite, abre Orgulho e preconceito, não importa que já tenha lido três vezes, que já tenha renegado seu lado sonhador. Esse é o único momento/lugar onde queria estar.



Nunca fui leitora assídua de Clarice, li pouco de sua obra até aqui. Isso somando a tudo que ouvi e li sobre ela me fizeram, no entanto, ter uma admiração pela sua forte personalidade. Vejo-a como alguém que foi muito sensível, observadora, critica e mesmo assim forte, marcante.
Na expectativa de conhecê-la melhor e também por ser uma obrigação de minha profissão, resolvi ler Laços de Família e alguns contos me impressionaram muito. Esses são os que mais gostei:

Devaneio e embriaguez duma rapariga - Nesse conto, a personagem está entediada da sua vida como mãe e esposa, sente-se adoentada e sem vontade de executar suas tarefas. Durante um jantar, entretanto, ela se diverte, bebe e percebe que sente-se segura ao lado do marido, ela implica com outra mulher, mais elegante e bem-vestida, e no fim sente-se superior por deduzir pelo corpo da outra que ela não possa ser mãe. Definitivamente não gosto dessa personagem, ela é entediante e limitada. Não é feliz e se contenta em diminuir outra mulher para conseguir dar algum valor a sua existência e voltar para casa satisfeita da vida pela qual já não sentia nem vontade de levantar da cama.

Amor - Esse conto tem uma temático próxima ao anterior, mas a personagem é bem diferente, Ana é agradecida pela casa, marido e filhos que a mantém sempre ocupada, eles estão sempre a exigir dela e é isso que dá sentido a sua vida. Nas horas vagas, quando a casa está em ordem e as pessoas não estão em casa, ela trata de sair e ocupar-se com compras. O que se percebe é que ela precisa fugir de si própria, acontece que durante a volta das compras, do bonde, ela vê um cego mascando chiclete. Essa cena aparentemente banal desencadeia uma epifania. Pode ser uma metáfora com sua vida, ela cega, agindo maquinalmente, o impacto a faz até descer no ponto errado, sentir-se perdida, saindo do roteiro de sua rotina perfeitamente programada. Ela chega ao Jardim Botânico e fica perplexa com as manifestações de vida, as plantas que dão energia e são sugadas e se decompõem para dar mais energia vital. Toda a agonia e reflexão de Ana são tão compreensíveis e próximos daquilo que passamos, em algum momento de nossas vidas, que ela se torna real. É real e desejável o momento em que ela volta pra casa e reencontra os seus, sabendo que nunca mais amará da mesma forma ou será a mesma. Mas está de volta ao seu porto-seguro.


A imitação da rosa - Laura deve ter tido um problema psicológico que a manteve internada, mas agora está em casa, pensando em um jantar que terá com os amigos e o marido, ela não tem filhos. Enquanto espera o marido, planeja usar um vestido marrom, discreto, planeja estar pronta quando ele chegar. Ela pensa em como gosta de sua casa, de sua arrumação impessoal, nada exagerado, ela parece ser o tipo de pessoas obsessiva por limpeza e organização. Nem mesmo a mulher deve ser exagerada, nem loira, nem morena, ela gosta de ter cabelos castanhos e procura não chamar atenção. Lembra que o médico a aconselhou evitar exageros, mas também agir naturalmente. Ela resolve enviar um buquê de flores pela empregada para a amiga, mas assim que dá a ordem, se arrepende, se desespera, porque as rosas são perfeitas e deveriam ser somente dela, ela queria ter um gesto elegante, mas não devia abrir mão de suas rosas. apesar do sofrimento, ela deixa que leve as rosas. E continua a pensar nas rosas, no marido chegando, no vestido marrom, mas algo acontece, o marido chega, preocupado, com medo de estar atrasado, de ser tarde demais, ela não está pronta, e fala que foi por causa das rosas. Talvez a perfeição das rosas tenhas despertado nela a sensação de estar tentando imitar isso, tentando ser a perfeita esposa, dona-de-casa e o desejo de rebeldia.

Feliz aniversário - Nesse conto há o aniversário da matriarca de uma grande família, e o que surpreende é o desprezo que ela sente pelos membros fracos que gerou. Ela demonstra isso apenas com uma cusparada, que ninguém entende, ela despreza filhos, filhas, noras, netos, eles são fracos, sem vontade, estão lá por obrigação.


Outros contos no livro são:
Uma galinha,A menor mulher do mundo,O Jantar,Preciosidade ,Os laços de família,Começos de uma fortuna, Mistério em São Cristóvão , O crime do professor de matemática e O búfalo.