Minha amiga tem vinte anos e um hímem intacto. Todas as outras amigas acham que ela tem que transar logo, já arrumaram os caras, planejaram os esquemas e se irritaram muito porque ela não topou quanso só estavam tentando livra-la de uma grande vergonha. Acham que ela tem complexo de rejeição ou inferioridade. Porque é errado uma mulher bonita não transar logo. Acham que ela é infeliz e insegura e fazer sexo vai resolver. Algumas delas não são felizes com relacionamentos casuais ou no casamento porque casaram só para não perder a oportunidade, uma melhor poderia não surgir.
Não acontece uma conversa em que elas não coloquem a virgindade da outra em questão e apontem soluções, dêem dicas de como resolver logo o problema, de como se arrumar, aonde ir, como agir, o que dizer. Mesmo que ninguém tenha solicitado ou perguntado.
Os pais de minha amiga têm orgulho de sua pureza, acham que ela vai ser uma boa esposa e mãe. Ela não é igual a essas outras por aí que saem com o primeiro que aparece, ela sabe se dar ao respeito e vai encontrar alguém que reconheça isso. Mas não pode demorar muito porque a mulher tem prazo de validade.
Ninguém pergunta pra ela sua opinião sobre o uso ou desuso de sua zona sul, se é orgulho ou vergonha ou nada demais.




A chuva fininha que batia em seu corpo franzino era o primeiro banho do dia. Em seus nove anos de vida, Sabrina já aprendera bem a se virar, se acordava com a barriga e doer de fome, era ir à rua onde há comida por toda a parte, sempre uma dona generosa disposta e lhe servir algum resto do jantar da noite anterior. Matar a fome, levar algo para casa, pois a mãe e os irmãos poderiam não ter tido a mesma sorte e assim ia vivendo sem grandes preocupações, aspirações ou questionamentos.
Não ia a casas ricas, eles nem abrem a porta. Passando por um desses bairros, havia poucas casas, lojas, depósitos e uma escola. Para em frente à escola um jovem casal, a menina é uma rainha de vestido rodado e esplendorosamente colorido, algumas partes do vestido rosa, outras amarelas, verde-claro, um interminável colorido. Ela entra com seu par e Sabrina tenta acompanhar. Entre ela e a rainha um portão e um enorme porteiro negro que a impede de entrar. Ela ainda olha o penteado da outra, dividido em duas tranças, laços e mais cores. E também o perfume, outras crianças passam por ela, coloridas e perfumadas. Ela fica parada em frente a escola e não lembra mais da fome. Pensa que aquelas crianças não são como ela, são limpas, claras, bonitas e usam roupas cheirosas. O porteiro é da sua cor e não tem dentes, mas olha de cara fechada quando ela se aproxima do portão.
Começa uma música. E o porteiro negro enorme não sai da frente do portão, ele tem uns cabelos brancos, tem uma cara de bom... Não pode entrar aí?
Não.
Mas não é uma festa?
Só para os alunos da escola.
Parece longe, nem dá para ver mais o vestido colorido e os meninos de chapéu e camisa xadrez, poderia ter ao menos uma brechinha que permitisse ver a festa. Sabrina nunca teve atração por escola, mas a escola que frequentou um dia era diferente daquela, tudo onde mora é diferente, as pessoas pareciam menos gente que as outras, não pareciam nunca ser tão limpas, nem tinham os cabelos tão bonitos, pareciam feitos de outra natureza.
 Ela percebe algo de inferior em sua gente, agora via tudo, não podia entrar por ser diferente, só queria ver a festa, pensou que seria bom ser como aquelas crianças. Achou um fragmento de espelho no chão, tirou os olhos do porteiro e apanhou. Viu seus olhos de sono, a pele encardida, dentes sujos, as roupas em trapos incrivelmente sem cor. Sentiu vontade de ter outra vida, de ser outra. Percebeu que a música parara, talvez o fim da festa. E a chuva fininha continuava.


Felicidades provocando infelicidades, abrindo feridas disfarçadas em cura. Eu pensei que era pragmática, prática, resolvida. A gente se blinda, eu me blindei tanto em busca de proteção que eu não me lembrava mais do que queria me proteger. Eu queria me proteger de mim, me salvar de ser eu. Eu era as minhas feridas, eu era meus sentimentos não correspondidos, era meu medo de amar, minha insegurança. Escondi isso tudo achando que podia me vencer. Eu era os sonhos que eu tinha e que de tão impossíveis eu também escondi, disfarcei em outros mais realizáveis. Não sei até que ponto eu posso viver sem mim, isso é, sem isso tudo que eu imaginava já ter destruído, mas descobri tão forte aqui dentro. Só pela visão de duas pessoas felizes de verdade, ela era frágil, era aceita assim e não precisava fingir. Então veio tudo, estranhamente não na hora, só o choque. Bem depois veio tudo, as lágrimas, as feridas guardadas, tudo tentando voltar. Se alguém já teve medo de si mesmo pode entender. Achei que era livre, mas era uma liberdade apática, que só gera aceitação e nunca amor ou ódio. Talvez me blindando de mim também tenha me blindado dos outros.



Em O diário de Bridget Jones, a narradora-protagonista encarna as possibilidades de problemas enfrentados pela mulher “moderna”. O enredo baseia-se nas suas tentativas de vencer o relógio biológico e conseguir subir na carreira e ter um relacionamento estável. E não é só isso, Bridget acredita que precisa emagrecer porque os homens só gostam das mulheres magras, precisa parecer mais nova porque os homens só consideram interessantes as mulheres até os vinte e poucos, precisa ter alguma decência vinda das ideias feministas para tentar ignorar essas imposições, parar de beber, fumar, organizar a casa.
Ninguém disse que a vida das mulheres tem sido fácil nas últimas décadas, as conquistas foram muitas, em consequência vieram, porém, imensos desafios. Em qualquer época, a sociedade e opinião geral encontram uma forma de dizer à mulher qual é o seu papel, pela leitura desse romance-diário, entende-se que não é porque a mulher encontra-se batalhando no mercado de trabalho que ela pode se dar ao luxo de não conseguir – ou não querer – assumir as responsabilidades de uma família, como boa esposa e boa mãe e ela precisa fazer isso em tempo recorde, antes dos trinta anos, quando todos os seus amigos casados e parentes já tomam para si a tarefa de lembrar-lhe que o tempo está passando e ela deve ao mundo um casamento e filhos.
Bridget alimenta o desejo de encontrar o par ideal e ter uma família, mas fica claro que sua maior preocupação é com as cobranças vindas de terceiros. Muitas vezes cobranças que já estão enraizadas na mente das pessoas e sem que elas percebam. É o que acontece com a personagem em datas comemorativas, ela passa todos os dias sem um namorado, mas passa a sofrer mais com isso com a aproximação do dia dos namorados pelo fato de que todos vão perceber que ela não ganhou um cartão. O mesmo procede nas reuniões com amigos e familiares e o temido Natal, quando todos resolvem questionar sua vida sexual e amorosa, como se, por não ser casada, ela ainda merecesse ser tratada como adolescente.
Da mesma forma que Bridget, outras mulheres não são completamente felizes, mas por outros motivos, há a que é casada e com filhos, mas lamenta o fato de não ter investido em si própria quando é traída pelo marido e não vê outras perspectivas de vida.Em ambas as circunstâncias há o ‘problema’ das muitas possibilidades que estão abertas às mulheres e nem todas sabe lidar com tantas funções ou escolher uma delas e aceitar e ser feliz com sua escolha.
Em tom de humor e ironia, o diário de Bridget também revela seus problemas com o consumismo do Natal e os hábitos que as pessoas adquiriram, mas que só servem para complicar a vida, como trocar presentes, gastar dinheiro com algo que o presenteado provavelmente não vai gostar e receber em troca um presente que também não queria e todos fingindo que adoram a situação.
De tudo isso, imaginamos que andamos complicando demais a vida, seja com cobranças pessoais ou aos outros e também vivendo situações desnecessárias apenas por convenções sociais, justo uma sociedade que se prega tão defensora da liberdade.


FIELDING, Helen. O diário de Bridget Jones.