Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. 


Sorteio de livros na aula de Literatura Norte- Americana.
Sempre a sortuda Andreza é a pessoa do meu grupo que encarregamos de sortear nosso livro / futuro objeto de pesquisa.
Ganhamos A Letra Escarlate, mas não levamos porque outra pessoa chegou na frente. Ficamos um grupo órfão, sem livro para trabalhar, trágico se não fosse cômico, mas contamos com a solidariedade de outra amiga que entrou no grupo e dividiu conosco Lolita e Extremamente Alto e Incrivelmente Perto. Literalmente, pulei de alegria, eu queria A letra escarlate, mas também há muito tempo queria ter tempo de ler Lolita. Ainda tivemos a sorte de encontrar essa adição linda em capa dura por 10 reais na estante virtual 




Meu primeiro contato com Lolita foi com o filme dirigido por Adrian Lyne que assisti há muito tempo e preferi não reassistir pra não mudar de opinião antes de escrever aqui. Naquela época, achei Lolita uma menina diabólica, sensual, cheia de truques pra seduzir um homem mais velho e o pobre Humbert ficou em minha mente quase como uma vítima, levado a fazer as maiores loucuras pra satisfazer sua paixão por essa menina ardilosa.


Sempre ouvi falar de Lolita como a história de uma paixão entre um homem mais velho e sua enteada adolescente.
Não foi o que eu li no romance, só consegui ver uma história horrível de abuso, em que um adulto estraga a vida de uma criança.

Humbert perdeu um amor na adolescência e nunca se recuperou disso, ele parou no tempo, procurando a antiga namorada Annabel em todas as meninas que encontrava. Nunca desejou realmente uma mulher adulta. Ele conta suas histórias de sanatório e debocha de como enganava os psicólogos, pois claramente sabia que tinha um problema, mas não queria ajuda, preferia satisfazer-se admirando as meninas pelas praças e parques.
Encontra Dolores Haze quando ela tem doze anos e ela é exatamente o que ele considera uma ninfeta.

O doente casa-se com a mãe pra ficar perto da filha. Apenas nos primeiros momentos Lolita parece interessar-se por ele. A mãe dela morre unicamente por culpa de Humbert, horrorizada com tudo que descobre lendo seu diário. Apesar de não ser a mãe mais amorosa do mundo, ela certamente daria à filha um destino melhor do que com Humbert. Durante todo os tempo em que estão juntos fica claro que a menina não é feliz e só espera uma oportunidade para fugir.
No hotel, ficamos em quartos separados, mas no meio da noite ela entrou soluçando no meu, e fizemos a coisa muito suavemente. Vocês compreendem, ela não tinha mesmo pra onde ir.
Enquanto eu estiver agarrado às grades da prisão, você, uma infeliz criança abandonada, poderá escolher entre várias moradias, todas mais ou menos iguais: a escola correcional, o reformatório, a casa de detenção juvenil ou num desses admiráveis asilos para moças (...)
Alguns podem argumentar que Lolita não era tão inocente, nem era virgem, mas há muita diferença entre relacionar-se por vontade e ser abusada por um homem que finge protegê-la.

(...) Ela havia penetrado em meu mundo, na negra e umbrátil Humberlândia, com uma curiosidade impetuosa; examinara-o com um erguer de ombros de jovial desagrado; e agora parecia pronta a escapar dele com algo semelhante à mais pura repugnância. Jamais vibrou sob minhas carícias, e um estridente: "Opa, que que você está fazendo?" era tudo o que eu merecia em troca de meus esforços.
Em todos os momentos, o cínico narrador confessa que sua vítima não era feliz.
(...) e os soluços de Lô no meio da noite – de todas as noites, de cada noite – tão logo eu fingia que estava dormindo.
Lolita é impedida de ter uma vida normal, por causa dos ciúmes de Humbert que a todo momento imagina-a insinuando-se para todos os homens a sua volta.
Verdade que ela era consumista e sempre dava um jeito de arrancar-lhe presentes e dinheiro, nas ocasiões em que ele pedia favores os quais não poderia obter por força, mas essa era também uma forma de juntar meios de fugir.
Mesmo o fato de Dolores se interessar por outro homem mais velho não diminui minha repugnância por Humbert, o outro ela amava, ele não. É simples, mesmo que uma mulher ou menina não seja virgem e interesse-se por homens, isso não dá o direito de outro homem sequestra-la e abusar dela frequentemente.
Humbet nada mais é que um monstro.
(...) por volta de 1950 teria de livrar-me sabe-se lá como de uma adolescente difícil, cuja mágica ninfescência se teria evaporado, ao pensamento de que, como sorte e paciência, eu poderia fazer com que ela eventualmente gerasse uma ninfeta que teria meu sangue correndo em suas delicadas veias, a Lolita II, que teria uns oito ou nove anos em 1960, quando eu estaria ainda dans la force de l’âge; na verdade, a faculdade telescopia de minha mente, ou de minha demência, era ao forte que me permitia divisar, no horizonte do tempo, um vieillard encore vert – ou seria o verde da putrefação? -, o excêntrico, carinhoso e salivante dr. Humbert, praticando com a soberbamente adorável Lolita III a arte de ser avô.
Ele me lembra esses seres horrorosos que de vez em quando saem nos jornais, descobertos depois de aprisionar e abusar das filhas por longos anos chegando a ter fihas-netas e repetindo os abusos.
Só depois de tudo acabado, Humbert tem alguma consciência do que realmente aconteceu entre ele e Lolita, do quanto ignorou os sentimentos dela pra aliviar sua consciência, alguns leitores podem jurar que ele a amava, pois a quis mesmo não sendo mais uma ninfeta, mesmo estando grávida de outro, mas pra mim, era apenas uma obsessão doentia, ele nem a conhecia direito pra amá-la, ele se importava apenas com seus próprios desejos.

Achei mais uma história de horror do que de amor, e mesmo com tudo isso, é impossível não se deslumbrar com Lolita, não se admirar com a originalidade, a grandiosidade dessa obra.



Lolita - Vladimir Nabokov 


4 Comentários

  1. Eu conhecia, mas não conhecia a história, acho que de alguma forma, Lolita é o personagem que todo mundo conhece, mas eu não sabia de verdade qual era a história, fiquei interessada em conhecer mais e sair do estereótipo já formado, mas confesso que também achei a história mais para terror do que para qualquer outro tipo de gênero!

    Muito boa a resenha!

    Beijoss

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  3. Gostei da resenha e sinto-me aliviada ao ver um outro leitor da obra com a mesma visão de Humbert como "(...) esses seres horrorosos que de vez em quando saem nos jornais, descobertos depois de aprisionar e abusar das filhas por longos anos chegando a ter fihas-netas e repetindo os abusos." Ou seja, um pedófilo nojento!

    Espantava-me que em uma sociedade que diz que condena a pedofilia, perceber os olhares de muitos homens, ditos de respeito, para pré adolescentes pelas ruas a fora. Mais ainda, como a moda atual brasileira é vista como indumentária de prostitutas em países desenvolvidos...

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  4. Gostei da resenha e sinto-me aliviada ao ver um outro leitor da obra com a mesma visão de Humbert como "(...) esses seres horrorosos que de vez em quando saem nos jornais, descobertos depois de aprisionar e abusar das filhas por longos anos chegando a ter fihas-netas e repetindo os abusos." Ou seja, um pedófilo nojento!

    Espantava-me que em uma sociedade que diz que condena a pedofilia, perceber os olhares de muitos homens, ditos de respeito, para pré adolescentes pelas ruas a fora. Mais ainda, como a moda atual brasileira é vista como indumentária de prostitutas em países desenvolvidos...

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