Crônica nova


Ela é dura como essas pedras no caminho que as pessoas pisam todos os dias e mesmo cansadas, feridas, despedaçadas, continuam firme no lugar. Algum escritor poderia escrever sobre ela, mas sua vida nunca teve uma poesia obvia, como a que procuram. Ela nem chegou a conhecer poesia, saiu da escola para trabalhar aos dez anos. O sonho dela é sobreviver. Não sabe o que é saneamento, não indaga aonde vão parar os impostos que paga. Não conheceu o pai, perdeu um filho por não poder pagar o médico ou ter um atendimento a tempo de salvá-lo, mas consolá-se com a ideia de que os anjos lhe pouparam os sofrimentos da terra, ela duvida de tudo, mas quer acreditar em Deus, pois sua fé é tudo que resta. Dorme exausta e sonha em acordar todos os dias com força para a luta. Sonha sem saber que sonha porque, em sua vida, só conhece o cru concreto, não há espaço para o abstrato. O sentimento que conhece é a perda, é a dor, a saudade e o amor, causador de todos os outros. Dentro dela tem amor, sim, desses que não se escreve, desses raros, incalculado, que não se declara e nem sabe que se chama amor.



Um Comentário

  1. Oi Daniele! Gostei muito do seu texto e o título escolhido foi extremamente bacana. Simples, mas perfeito. Adorei essa frase: "Sonha sem saber que sonha porque, em sua vida, só conhece o cru concreto, não há espaço para o abstrato." Muito bonita mesmo!
    Você escreve muito bem, de uma maneira que conseguiu me tocar e deixar sem palavras, de verdade. Meus parabéns e obrigada por um texto tão bonito e verdadeiro!

    Beijinhos! ♥ www.primeiro-livro.com

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