[...] "Fato: não me sinto confortável em festas. Aniversários, formaturas, jantares, bota-foras, bailes de casamento, anos-novos, baladas, orgias (embora ainda não tenha participado de uma, sei que vou pôr defeito em tudo). Não consigo fugir de me sentir meio mongol nessas situações, e normalmente passo a noite parado num canto, abraçado num pilar feito um ursinho coala que esqueceu de tomar o anti-depressivo e só quer voltar o quanto antes para seu galho na árvore. Fico ali, matutando pensamentos darwinianos e admirado com o potencial que as pessoas tem para ser frívolas, esnobes e dissimuladas."

http://www.julietenuncamais.com.br/2013/04/046-e-12.html



Nasci num tempo de tamanha violência. Orfeu chegou a comover as feras com sua lira e eu não consegui comover nem o Astronauta. Enfim, um gato é um gato mas como gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo mas sem entrar nele, é lógico. Ficar de fora, mantenha distância, diz aquele ônibus bufando tanto pelo traseiro que não fico atrás nem um minuto. Detesto guiar, entrar nas engrenagens. Nas besouragens, diz a Aninha. Enredos. Bom é ficar olhando a sala iluminada de um apartamento lá adiante, as pessoas tão inofensivas na rotina. Comem e não vejo o que comem. Falam e não ouço o que dizem, harmonia total sem barulho e sem braveza. Um pouco que alguém se aproxime e já sente odores. Vozes. Um pouco mais e já nem é espectador, vira testemunha. Se abre o bico para dizer boa noite passa de testemunha para participante.
Lygia Fagundes Telles in As Meninas (Lorena).