Conto A Sauna - Lygia Fagundes Telles




  Muitos trabalhos, ensaios, artigos, resenhas falam sobre o papel feminino, o perfil feminino, o papel na mulher na obra tal. Sempre li romances e contos de Lygia F. Telles focados em personagens femininos, mas hoje tive uma surpresa com o conto A Sauna porque é narrado em primeira pessoa e o personagem é masculino,uma novidade. 
      Ele é cercado por mulheres fortes, marcantes que lhe serviram de escada na vida, soube aproveitar o melhor de cada uma delas e descartá-las na hora certa e isso me fez pensar muito na mentalidade masculina, a mente das mulheres costuma ser mais esmiuçada pelos escritores. Numa sauna ele lembra de Rosa,  sua mulher Marina sempre perguntando e fazendo recordar, Rosa era namorada de um amigo que o tinha ajudado muito, conquistou Rosa, foi morar em sua casa, colocou seu tio no asilo e quando começou a crescer se envergonhava do jeito simples dela, queria voar mais alto, a carreira mais importante que uma pessoa que o amava, que foi generosa a ponto de ficar sem nada para lhe ver feliz.. Pensamos que os homens precisam sempre ser os fortes, mas eles também buscam um apoio, uma companhia de quem se orgulhar.
Mas por que Marina disse isso? Que nunca amei ninguém. Não te amei, Marina? Nem no começo? A vontade de te montar e ser montado, aquela ânsia. A satisfação que me estufava o peito quando entrava com você numa sala, não lá sua beleza, que você não era bonita, mas tão elegante. 
Mas independente do sexo do personagem o que ficou do conto foi uma reflexão sobre nossas escolhas, nossa luta por um lugar ao sol, reconhecimento. Lá na frente, nesse lugar enganosamente distante, será que vai ter valido a pena cada decisão, cada atitude, cada gesto sabidamente mal intencionado? O Conto A Sauna deixa essa reflexão.
      






Alguém que nunca consegue ficar satisfeito com nada. Ela não é bem assim, ela tem milhares de personalidades dentro de si. Algumas tímidas, outras extrovertidas, mais umas exigentes, exageradas, sonhadoras, simples, estressada. Todas, todas elas dividindo uma única mente e cada uma querendo aparecer mais, dominar mais, numa guerra constante e desgastante. Por culpa dessas outras, ela não consegue a tal satisfação. Não, ela consegue sim. Ela chega a transbordar  satisfação por todos os poros. Por cinco minutos. É a meiga ou a exigente ou a esquisita, uma só delas está satisfeita e logo uma outra ou todas as outras juntas reclamam terreno, recomeçam a algazarra e resignada ela aceita que ainda não consegue ter satisfação e continua tentando, tentando...




Inventário - Elisa Lispector


- Terrível o não chorado, o não dito. O represado corroendo lá dentro. Destroçando, como uma avalanche há muito reprimida. - Se eu conseguisse ao menos a aceitação plena de mim, e não através da aceitação dos outros, mas por mim mesma. Na autenticidade assumida na minha carne, na minha vida. E de repente, como um canário a anunciar pelo seu canto aos de sua espécie: eu sou um canário, ela disse para si: eu sou eu, e, com isso, pareceu-lhe afirmar-se contra todas as rejeições. ( O Silêncio)
Título: Inventário
Autor: Elisa Lispector
Editora: Rocco
Ano: 1977
Páginas:97


Sinopse - Inventário - Elisa Lispector

Segundo livro de contos de Elisa Lispector, este livro se insere dentro de sua obra com grande destaque, pois mais uma vez é constatada a sua habilidade em transmitir os mais fortes sentimentos que habitam o interior humano, conduzindo o leitor pelos caminhos da emoção, ora tão suaves quanto a contemplação de um pôr-do-sol, ora tão violentos quanto o inferno de desejos que queimam as pessoas por dentro. Este segundo livro é a confirmação de uma grande escritora. 



    Pegando carona com Nelson Rodrigues que disse que poucos livros podem te perder, o que fazer ao deparar-se com um desses livros? É inútil se perguntar isso quando um livro te faz pensar na irremediabilidade da vida com histórias de pessoas que são levadas pelo destino. Fiquei com esse impressão ao ler Inventário, não que a história dos personagens importe, mas os contos não são sobre acontecimentos, são sobre impressões, sonhos, sensações. Os personagens são marcados pela solidão, falta de amor, até falta de auto-aceitação e chegam a um ponto onde se torna impossível manter esse frágil equilíbrio que todos tentamos forjar na vida. Não sei dizer se foi prazer que senti ao ler esses contos e provavelmente não foi, só fiquei perturbada, mas ainda com algum sentimento de esperança, ela termina alguns contos falando de manhãs , talvez essa coisa de refletir e perturbar-se e questionar-se leve a um recomeço.
     Não sou grande conhecedora de Clarice, mas achei a escrita de sua irmã muito próxima da sua, opinião de uma quase leiga em Clarice e Elisa.
     Não é um livro fácil de jeito nenhum, não é para ler no ônibus, não é para ler com gente por perto, com nada que distraia a atenção,não adianta falar sobre, tem que ler e  não é para ler, é para mergulhar e é para reler. 


Quem já leu bastante o blog percebeu que leio de tudo um pouco e não vai estranhar que tenha lido esse livro, A hora do lobo de Amanda Carpenter. Tudo começa com aquela velha história, uma frágil mocinha em perigo, um homem poderoso, protetor e, (por que não dizer?), dominador.  Harper é o heroi que encontra Nicole depois de um assalto, o que não consegui deixar de reparar é que ele a manda entrar em seu Jaguar, leva para sua casa e em nenhum momento pergunta se é isso que ela quer, está certo que ele é muito gentil em ajudar uma estranha, mas às vezes isso cansa nesse tipo de romance! Apesar de sua aparência frágil, quase adolescente, Nicole surpreende a todos por ter coragem de desafiar o poderoso Harper. E é claro que ele está interessado nela, faz uma proposta de trabalho, apresenta sua família, consegue comovê-la e seduzi-la e ela vai ficar em dúvida se esse homem maravilhoso se apaixonará por ela, se será capaz de casar com ela, como se depois do casamento, ela tivesse a garantia de que seriam felizes para sempre. Não amaldiçoei a hora que li, mas é uma história fraquinha e nem ao menos é picante, os personagens não me envolveram, até Anastasia Steele tem mais carisma que Nicole. Óbvio que é um livro para ler numa tarde em que se quer ficar algumas horas sem pensar em nada, só relaxando a cabeça,mas mesmo nesse estilo existe muitos menos ruins.


Resenha do livro Doidas e Santa de Martha Medeiros

"Não sei se você percebeu, mas viver é nossa única opção real. Antes de
nascermos, era o nada. Depois, virá mais uma infinidade de nada. Essa
merrequinha de tempo entre dois nadas é um presentaço. Não seja maluco de desperdiçar."



Doidas e santas é um livro para ler quando se está deprimido, quando se está sem assunto, quando se está feliz e quer algo para se identificar. Tudo isso junto, afinal são 99 crônicas onde Martha Medeiros fala sobre diversos assuntos e mostra sua (nossa) pluralidade. Todo leitor já passou pela experiência de se identificar com um livro ou um personagem ou autor. Isso é comum e é clichê demais falar, mas foi o que me aconteceu e me surpreendeu, pois sou totalmente distante do mundo de Martha Medeiros e descobri essa sintonia entre nossas opiniões.
 As crônicas são divertidas, irônicas, filosóficas e versam sobre assuntos variados entre fatos marcantes para o mundo e pequenos momentos de nosso cotidiano, numa linguagem leve, tranquila, como se estivéssemos numa conversa informal sei lá, no cabeleireiro. Gostaria de falar de todas as crônicas, mas é impossível, numa única postagem, mas algumas me marcaram bastante, como "A Mulher Invisível", ela conta sobre um dia que estava muito desatenta e não notava nada ao seu redor e não era notada, por isso um homem quase sentou no colo dela,rs, é uma situação cômica, mas me fez refletir muito sobre momentos em que me senti invisível e enxerguei que em todos eles eu fui a primeira a não notar os outros, então se você quer ser notado, esteja de olhos abertos para a vida.
Em Doidas e santas, cada crônica acaba trazendo uma lição de vida, posso falar que aprendi até a me entender, amar e aceitar mais depois que li esse livro. Pois, vi que meus medos, minhas ideias, minhas manias,meus sonhos de viagens loucas, também habitam outras mentes.Para mim a melhor lição do livro é "saia do tédio,quebre sua rotina", isso vai se ligar ao meu novo ideal de vida que é a busca pela desconstrução, só nos encontramos realmente depois que nos perdemos totalmente.


Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem
estaria disposta a cometer loucuras? 




Como foi parar ali, ela não sabia. Por que saiu de casa assim? Por que tanta ousadia? Todas as perguntas sem resposta. Estava ali e pronto. Agia naturalmente, entrara no mercado com a lista de compras e seguia sua rotina, como se não houvesse nada de diferente, só desconfiou quando notou que a olhavam, a maioria passava por ela sem nada enxergar. Dos que olhavam, uns estavam surpresos, outros chocados, alguns indignados ou apenas rindo da figura ridícula. Então ela viu que estava completamente nua, mas a sua maior surpresa é que depois do natural acanhamento, veio um conforto de poder estar nua, de não ter nada a esconder, porque sua nudez era iguail a nudez de todos os presentes, só que eles escondiam. Queria gritar isso para todos que riam ou recriminavam seu ato, porque por baixo de suas roupas e máscaras todos são iguais. Será que eles não veem? E o pior são os que passam sem nada notar. Queria gritar " Eu estou nua aqui mostrando o que todos escondem e me ignoram ou riem? " Mas de seus lábios não saia som algum. E por não conseguir se explicar quis novamente se esconder de todos, correr nua no meio deles até chegar a sua casa e se proteger. Em meio das tentativas inúteis de falar ou correr, ela acordou. Mas no fundo ela sabe que é tudo real.





“É melhor estudar um só livro, qualquer que seja ele, com raça, alegria e entusiasmo, do que estudar todos os livros do mundo friamente.”
(Ariano Suassuna)


"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

(Nelson Rodrigues)


Eu sempre quis ler todos os livros do mundo e ficava frustrada por não estar por dentro de todas as novidades literárias, um exemplo é que enquanto outros blogs publicam cinco resenhas por semana, leituras de uma única pessoa, eu não costumo passar de uma por semana. Hoje aceito que é impossível ler e saber de tudo que lançam todos os dias e mais ainda que muita coisa é dispensável, quase tudo é dispensável. Escuto What am I to you de Norah Jones milhares de vezes por dia. Só reli meu livro favorito quatro vezes e tem outros que amo, que marcaram minha vida e por falta de tempo ainda não reli. Vou fazer com os livros os que faço com a música, reler todas as vezes que me der vontade.


Hoje tive que ficar parada alguns minutos na estrada por causa de uma obra no caminho entre Aliança e Nazaré, um trecho que percorro todos os dias e, sem nada em que pensar, fiquei observando os veículos passando, claro que não eram só veículos, eram pessoas, eram vidas, eram histórias. A história de alguém entre a vida e a morte numa ambulância, de alguém que tenta correr pra salvar essa vida, a história de uma mãe que há muito tempo não vê o filho, de um rapaz que vai matar a saudade da namorada, de um trabalhador que ganha a vida em muitas estradas. Eu ia para um evento de poesia e no entanto há tanta poesia à nossa volta e nunca paramos para ver. Há mais poesia em momentos banais do que em muitos versos que já li, só precisamos estar de olhos e mentes abertos.



Identifiquei a correria em que vivemos com um poema que ouvi depois :

RADIOGRAFIA
Andaime
                                              pedreiro
pedreiro
                                              andaime
o ortopedista olha radiografias numa manhã parda
e só vê
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES
    ANDAIMES    ANDAIMES    ANDAIMES

(José Olivá Apolinário)


E tem tudo a ver com o momento em que vivemos, não deixamos de enxergar apenas a poesia simples da vida, mas também estamos cegos para a humanidade, vemos veículos, vemos prédios, vemos roupas de grife e não vemos o ser humano. 


Reblogando:

A Comissão Organizadora do IV Encontro Pernambucano dos Estudantes de Letras, através da ExNEL, torna público o Edital de inscrições para o evento, com o intuito de estabelecer, esclarecer e orientar a seleção e apresentação de trabalhos e as inscrições para o público geral, tanto como os pré-requisitos relativos à participação no mesmo. O Encontro será realizado no período de 25 a 28 de abril de 2013, no Campus Mata Norte da Universidade de Pernambuco.
O período para a inscrição de trabalhos para o IV EPEEL será das 08h do dia 10/01/2013 às 23h59 do dia 17/02/2013, para o e-mail academicaepeel2013@gmail.com. Informações sobre a submissão de trabalhos e outras estão disponíveis no Edital. EDITAL IV EPEEL.

Eu havia deixado de publicar eventos, mas esse eu estarei lá, então vou comentar aqui se gostei ou não.

Todos os detalhes e como se inscrever , clique aqui.


Resenha do livro Príncipe Caspian / Crônicas de Nárnia


Título: As Crônicas de Nárnia - Volume Único
Autor: C.S. Lewis
Tradutor: Paulo Mendes Campos
Editora: Martins Fontes
Ano:2009 /2ª ed.
Páginas: 289 a 396.



Arrepiante! Pedro, Suzana, Edmundo e Lúcia já estão há um ano no mundo “real” e vão para a escola quando são transportados para um mundo em ruínas, chegam num lugar desabitado e abandonado há séculos. Revirando o pouco do que sobrou de um antigo castelo, eles descobrem o mais incrível, eram eles que moravam ali, estão em Cair Paravel!  Acontece que o tempo em Nárnia passa de modo diferente, bem mais rápido que o mundo das crianças. Homens telmarinos tomaram o poder e acabaram com as criaturas mágicas, ou pensam que acabaram, pois muitos sobreviventes vivem escondidos. Para os novos habitantes do lugar, Nárnia, Aslam, os reis e as criaturas mágicas não passam de uma antiga lenda. Para complicar a situação, o rei telmarino foi assassinado pelo irmão e agora seu filho, o príncipe Caspian corre sérios riscos. Caspian é diferente do tio, ele acredita na magia de Nárnia e sonha com o dia em que tudo volte a ser como era antes. Caspian ganha de seu tutor a trompa da rainha Suzana, segundo a lenda, ela é capaz de trazer os reis de volta do passado, é assim que Pedro e os irmãos voltam para Nárnia, para ajudar o príncipe Caspian a destruir seu tio Miraz e seus exércitos.

Todos têm sua fé testada, Caspian precisa acreditar que quatro crianças podem ajudá-los e os quatro reis de Nárnia chegam a duvidar da volta de Aslan, mas são todos epicamente corajosos na luta contra os telmarinos. Comparando com o filme, ao contrário de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, a adaptação de Príncipe Caspian teve várias partes diferentes do livro e quem viu o filme primeiro pode perder boas partes do livro esperando chegar a alguma cena que viu no filme, então é bom ler o livro primeiro, mesmo com a tentação de o filme ser mais rápido e prático. Mais uma vez, as batalhas são espetaculares e cheias de emoção, são a melhor parte do filme, já no livro a melhor parte é o começo, o retorno, triste porque dá uma certa melancolia imaginar que toda a Nárnia foi destruída e essa não é a única parte triste do livro, o final tem um clima extra de despedida.

 




Título: O feijão e o sonho
Autor: Orígenes Lessa

Editora: Ática 
Páginas:128


Sinopse:

Romance que narra a história do poeta Campos Lara, professor de uma pequena cidade do interior paulista, dividido entre o universo sensível da poesia e as amargas necessidades do cotidiano. 



Será que você consegue passar uma tarde totalmente inútil, apenas admirando a brisa, ou ficar até de madrugada comentando um livro com amigos? Será que você já sofreu a angústia de escolher entre um sonho e a obrigação? Esse livro é para essas pessoas extremamente sonhadoras e inadaptáveis a esse mundo prático.
O feijão e o sonho é a história do poeta Campos Lara, mas vai bem além disso, chega e ser a história de muitos outros escritores. O título explica-se, um homem sem grandes condições financeiras sonha em viver de sua vocação que é escrever, mas os versos não dão dinheiro para sustentar a família e ele não tem senso prático para ter sucesso em outros trabalhos. Campos Lara sofre com a insistência da esposa Maria Rosa para que para de sonhar, ela é implacável e não se conforma em viver na miséria com os três filhos. Maria Rosa está certa, mas  aos poucos ela consegue entender a alma do marido, como ele também com o tempo percebe o quão egoísta é com a família, pois essas pessoas sonhadoras são tão alheadas do mundo que não percebem coisas óbvias aos outros.
Nesse conflito de não conseguir um emprego normal, nem lucrar com os livros, Campos Lara vai parar numa cidade pequena, que é o terror de qualquer um que goste de cultura e arte, já que até hoje o interior é um lugar onde as pessoas só tem como meio de quebrar o tédio o hábito de falar da vida alheia. Um artista precisa estar onde as coisas acontecem.
Numa discussão com Campos Lara, Maria Rosa o acusa de querer chamar atenção com seus escritos, que essa é sua grande vaidade, ele dá uma resposta que eu sempre imaginei.
“ – Mas isso não é vaidade, é a alegria de encontrar alguém que nos compreenda.”
Sou uma mera amadora no ramo, mas penso exatamente assim, no fundo, os escritores não querem dinheiro, prestígio ou fama, mas apenas alguém que o leia, entenda e, quem sabe, o aceite. Lembram que o Flaubert disse que Madame Bovary era ele? Penso que é isso, o personagem não é o escritor, mas é tão ele quanto um filho, saiu dele e faz parte dele, é através dele que o escritor vive outras vidas além da sua limitada existência.
Campos Lara também fala que pode sonhar com a posteridade, mas jamais ser analisado nas escolas, isso me fez pensar tanto no ensino da Literatura, deve ser torturante mesmo imaginar pessoas lendo seus livros por obrigação.
Alguém que leia O feijão e o sonho e não tenha um pezinho no lunático mundo dos sonhos pode chegar até a ter raiva do poeta, de seu egoísmo, de sua impotência diante do sofrimento da esposa e dos filhos, mas as outras pessoas, essas que se identificarem e aceitarem o poeta, terão a salvadora sensação de ver que não estão sozinhas no mundo.