Um elefantinho marrom tão brilhante. Uma galinha de gesso, branca com bolinhas azuis. Onde já se viu galinha branca com bolinhas azuis? Onde já se viu juntar tanta tralha desnecessária? Onde já se viu parar num momento crítico e ficar pensando no que vai fazer com uma galinha de bolinhas azuis, um elefantinho marrom e outras tantas tralhas? Será que separação é isso? Resolver dar fim a tralhas que você não sabe mais pra quê tem?
E as lembranças, fotografias, tanta coisa em comum. Deixar? Colocar numa caixa e jogar fora? Colocar numa caixa e guardar?
A gente se preocupando com as tranqueiras, quadros, objetos de decoração, coleção de filmes e ninguém vê o amor escapando pela janela. Acontece que quando ele se vai tudo isso se mostra vazio. A casa tão cheia e ao mesmo tempo vazia. Reuniões, encontros, uma horinha a mais porque a conversa está boa. Afinidades. É sempre culpa das afinidades. Uma amiga com quem tenho muita afinidade.
E se não estiver atento nem dá pra perceber. O amor acaba de repente, num minuto você caminha na brisa, é fim de tarde, jardins floridos no caminho. No minuto seguinte, tempestade, lama, ventania e você na rua sem ter pra onde voltar.
Se o caminho é difícil o negócio é ser prático, a galinha, elefante, choros, lembranças, fotografias, tudo na mesma caixa e direto pro lixo porque caminhar com pesos inutéis é sofrer à toa.
Qualquer dia seguinte o sol brilha de novo e vai ser bom recomeçar.


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Sinopse - Contos de Murilo Rubião - Murilo Rubião

Sucesso de vendas na década de 1970, Murilo Rubião se aventurou no universo do fantástico mesmo sem conhecer Franz Kafka e antes de o gênero ficar em voga entre os escritores latino-americanos. Além de precursor - seus contos foram escritos, em sua maioria, entre os anos 1940 e 1960 -, Rubião é mestre em fazer o absurdo penetrar na realidade cotidiana, subvertendo-a e lançando novos olhares sobre temas consagrados da literatura, como o desejo, a morte, o amor e a falta de sentido do mundo moderno. Esse fantástico está presente em todos os contos e é intensificado pela falta de espanto dos narradores e das personagens diante das situações extraordinárias que presenciam e por uma linguagem objetiva e precisa. Para obter o perfeito equilíbrio entre essas dimensões, Rubião acabou se tornando um autor que preferiu reescrever seus textos à exaustão a publicar uma obra extensa. Assim, ao longo da vida, selecionou para serem lançados em livros apenas os 33 contos - verdadeiras pérolas literárias - que compõem esta antologia. "Ele nos transporta para além de nossos limites, sem entretanto jamais perder pé no real e no cotidiano." - Carlos Drummond de Andrade


Eu não conhecia a obra de Murilo Rubião, na verdade tomei conhecimento através de uma peça muito comentada estrelada pela atriz Débora Falabella, quando soube tratar-se de Literatura Fantástica interessei-me bastante e li os contos. Também procurei saber mais sobre o autor mineiro e descobri um hábito diferente: o de reescrever os contos. Uma característica bem estranha, acredito mais normal a característica de Clarice Lispector que declarou não se interessar mais por um livro depois que esse era publicado. ( Eu mesma quando posto uma resenha não tenho coragem de reler). Partindo para os contos, não é o fantástico que eu estava habituada, é um realismo mágico, os fatos, acontecimentos fantásticos são jogados pelo narrador sem nenhum estranhamento, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Há por exemplo o conto Bárbara, onde um marido faz tudo e consegue tudo que a mulher pede e a cada desejo satisfeito ela engorda mais. O marido não oferece resistências aos pedidos da amada e não se importa se vai levá-los a falência, ela pede uma árvore, ele compra a casa toda só para dar-lhe a árvore, ela pede um navio, ele compra o maior e ela engorda tanto que nem vários homens formando um círculo conseguem abracá-la. E quando ela pede uma estrela, ele não se assusta, vai buscar e acha até melhor porque ela não pediu a lua. Bárbara é como nós, sonha, obtém o objeto sonhado e logo enjoa e passa para o próximo.



Resenha do livro Sonho de uma noite de verão / William Shakespeare


Título: Sonho de uma Noite de Verão
Autor: Willian Shakespeare

Adaptação: Ana Maria Machado
Editora: Scipione
Páginas:95

 

Sinopse:
Ação e movimentação, paixões e casamentos, brigas e reconciliações, equívocos e finais felizes. É um Shakespeare muito divertido e nada trágico, um "sonho" originalmente escrito para uma festa de casamento na vida real. 



"Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isso não tem importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado".

Uma comédia leve, romântica e muito divertida. Sonho de uma noite de verão conta a história de uma noite cheia de acontecimentos mágicos.O texto original era de uma peça, a adaptação de Ana Maria Machado torna a linguagem extremamente simples, a única coisa que pode confundir é a quantidade de personagens com nomes que não estamos habituados, mas a leitura é muito fácil e prazerosa. Tudo começa com uma quadrilha amorosa, Lisandro que amava Hérmia que era noiva de Demétrio que era amado por Helena. Shakespeare seguia a tendência de sua época, século XVI, onde era comum obras do Classicismo terem personagem que faziam parte da mitologia grega, além disso ele acrescentou à obra seres do folclore inglês. As pessoas mortais têm suas vidas alteradas por fadas e elfos que acabam criando muita confusão, fazendo os personagens amarem o par errado. A forma parece uma novela, muitos personagens e tramas paralelas. Lisandro e Hérmia marcam encontro num bosque tranquilo, Helena e Demétrio também vão para lá.Os dois casais acabam se encontrando no bosque, onde também vão a rainha das fadas e o rei dos elfos. Um grupo de artesões planeja uma peça para encenar no casamento de Teseu e Hipólita, eles resolvem ir ensaiar no bosque! E para completar, Teseu e Hipólita vão para o mesmo bosque com uma comitiva!
Os personagens fantásticos não implicam em uma obra infantil, é um livro para adultos e de elevado valor cultural, tem lendas inglesas, referências mitologicas e é muito comovente. Não tem como não ficar torcendo para que os elfos e fadas consigam consertar suas trapalhadas e as dos humanos. Tudo como num belo e agitado sonho de uma tranquila noite de verão.




Resenha do livro O cavalo e seu menino - Crônicas de Nárnia


Título: As Crônicas de Nárnia - Volume Único
Autor: C.S. Lewis
Tradutor: Paulo Mendes Campos
Editora: Martins Fontes
Ano:2009 /2ª ed.
Páginas: 186 a 288

 

Sinopse - As Crônicas de Nárnia: O Cavalo e seu Menino - Volume 03 - C. S. Lewis

Ao saber que não era filho de Arsheesh, o pescador, o jovem Shasta decide fugir da cruel Calormânia. Na companhia do cavalo falante Bri, ele parte em direção ao Norte rumo a Nárnia, onde o ar é fresco e reina a liberdade. Em sua jornada pelo deserto árido, Shasta tenta imaginar o que estará esperando por ele adiante. Tudo parece tão vasto, desconhecido, solitário... e livre.



Embarcando em mais uma crônica de Nárnia, dessa vez a aventura chama-se um cavalo e seu menino. O título já chama muito a atenção, como um cavalo pode ter um menino? Claro, estamos em territórios criados por C.S. Lewis, onde tudo é possível. Não chegamos logo em Nárnia, mas em um lugar chamado Calormânia onde vivem humanos. Em O Leão, A Feiticeira e o Guarda- roupa, o castor chega a falar que há muito tempo humanos, filhos de Adão, não iam a Nárnia, mas então Calormânia não faz parte de Nárnia. Não dá para saber como humanos foram parar lá, mas provavelmente a explicação virá nos próximos livros.
Em Calormânia vive Shasta, um menino que é explorado pelo homem que o cria, um belo dia ele recebe a visita de alguém que deseja comprá-lo, para sua surpreza o cavalo do homem fala e o convence a fugirem juntos. É tudo muito novo para ele, pois em Calormânia não existem animais falantes, nem nada de mágico, é só uma vila de pescadores, longe até da cidade deles. O cavalo Bri é de Nárnia e sabendo de suas nobres origens é todo orgulhoso e presunçoso, eles encontram outros fugitivos na jornada, a égua também falante Huin e a menina Aravis que foge de um casamento forçado. Huin, apesar de ser de Nárnia não é orgulhosa como Bri, mas Aravis por ser uma nobre calormana é tão orgulhosa quanto Bri e quase não fala com Shasta, mas todos sabem que em Nárnia serão iguais. Isso tudo se passa durante o reinado do grande rei Pedro que vimos no livro anterior, aqui Pedro, Suzana, Lúcia e Edmundo são reis adultos. Durante a fulga Shasta é visto por narnianos que o confundem com um príncipe chamado Corin e o obrigam a acompanhá-los. Lá ele conhece Suzana e Edmundo. Acontece que eles estão em apuros, pois o príncipe calormano deseja casar-se com Suzana e ela se recusa, e sabe que o príncipe não os deixará sair de lá,dessa maneira eles também querem fugir para Nárnia.
Dessa vez não tem anel mágico, nem guarda-roupa encantado. A aventura é tentar chegar até Nánia e isso nunca foi tão difícil. Até aqui é o livro que tem mais personagens e dá a impressão de ser mais extenso, mas a narrativa é ágil e as mudanças no foco narrativo permitem visões dinâmicas das cenas de batalha. É um pouquinho menos encantador que os dois primeiros livros, talvez por não se passar em Nárnia, mas os personagens também são muito carismáticos  e mesmo os mais orgulhosos acabam nos conquistando. Também é bom para ter uma noção dos paises que rodeiam Nárnia e como são suas relações. E claro, muito bom reencontrar nossos velhos amigos, mesmo que seu reinado fiquem só no pano de fundo.

p.s.: Só agora prestei atenção no tradutor, Paulo Mendes Campos, deve ser o das crônicas *-* 




Sinopse



: Crônicas encantadoras sobre expectativas e acontecimentos reais, escritas por alguns de nossos maiores escritores - Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos
Devia escrever uma resenha, mas o livro pode outra forma qualquer, mais livre. Eu não li, eu encontrei quatro autores, cronistas maravilhosos e velhos amigos. Eles me contaram logo como começaram a escrever em um tempo em que não havia blogs. Rubem Braga se emocionou até em ver seu nome em letra de forma pela primeira vez! Dá pra acreditar? O irmão dele fundou um jornal e ele passou a publicar artigos e crônicas. Carlos Drummond de Andrade confessou que gostava de fazer redação na escola, mais velho ele escrevia e trocava opiniões com amigos também escritores, "Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo de amizade crítica.". Ele tem pena de mim porque meus amigos sempre falam que escrevo bem e tenho talento. Obrigada, Carlos. Já Fernando Sabino descobriu-se na arte de recontar histórias, só não gostei quando ele fez isso com Dom Casmurro, mas isso já é outra história. Ele participava de concursos de crônicas e às vezes ganhava. E seus amigos escritores também foram fundamentais. E Paulo Mendes Campos, que eu nem conhecia, foi logo contando suas aventuras, fugiu de casa e consequentemente já teve matéria para um memorial. Já conhecia algumas crônicas do tempo do colégio, " Com o mundo nas mãos" sabia quase de cor, em cada uma o registro irônico, filosófico, sarcástico,de uma cena banal ou crucial da humanidade ou do homem individual. Deveríamos ler mais crônicas e escrever mais crônicas variadas, de diferentes regiões, de diferentes populações. Mas a minha favorita é “Para Maria da Graça” de P.M.C. É uma dedicatória num livro que dá de presente a uma menina de 15 anos, receoso de que ela se perca nas loucuras de Alice ( ou da vida?) ele faz uma interpretação cheia de conselhos e verdades, tão lindo que dá vontade de chorar.
" Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida.São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão rídiculas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a m ponto, costumam perguntar: " A corrida terminou! mas quem ganhou? "
Eu me pergunto também, quando seremos capazes de amar alguém a ponto de querer vê-lo à nossa frente? 







Autora: Patrícia Melo
Ano: 2009
Número de Páginas: 240
Editora: Rocco

Sinopse - O Matador - Patrícia Melo

Um jovem da periferia da cidade grande perde uma aposta de futebol e pinta os cabelos de louro. Essa simples brincadeira desencadeia uma série de ocorrências que farão do protagonista deste romance um criminoso brutal.
Num estilo vertiginoso, com extrema violência verbal à qual não faltam sensibilidade e humor, ainda que abrasivo, Patrícia Melo nos mostra o percurso de um jovem frustrado e perplexo, que já não sabe a diferença entre a matança e o baile funk, entre o amor e o ódio.
Neste seu segundo livro, Patrícia Melo mergulha nas raízes da violência urbana e confirma as qualidades apontadas pela crítica em Acqua toffana: a prosa ágil, o vigor narrativo, o controle sobre o texto, a ironia, a visão ácida, a criação de personagens aparentemente incoerentes, ao mesmo tempo banais e esquisitas. O resultado não deixa ninguém indiferente.


Essa história é mais uma prova de como pequenas decisões podem transformar radicalmente uma vida. Máiquel era uma sujeito banal, desses que se encontra todos os dias na periferia, perdeu uma aposta boba e precisou pintar o cabelo de loiro, mas a partir daí ele sente-se tão diferente a ponto de ter coragem de fazer tudo que tem vontade, inclusive matar um homem. Depois que ele mata um bandido e todos o apóiam as coisas começam a ficar confusas, os medos, os valores, ele matou um homem e não foi preso, pelo contrário, as pessoas agradecem. O pior é que Máiquel tem tudo para ser um cara legal, ele sente culpa, tem pena da namorada da vítima, uma dor de dente constante, cria um porquinho como animal de estimação. Só um carinha que se achava feio e sem perspectivas de vida, o leitor acaba gostando dele. A narração em primeira pessoa é aliada de Máiquel, não temos um intermediário, lemos a linguagem dele, os sentimentos dele, os palavrões dele, que não são para ofender, é só o jeito que ele fala. Que não se sinta culpado o leitor que já sentiu até pena do Máiquel, um pessimista nato, ele só espera o pior da vida. “Só há uma explicação: Destino. Antes da gente nascer, alguém, sei lá quem, talvez Deus, Deus define direitinho como é que vai foder a sua vida.”
Muitas vezes durante a narrativa vemos que Máiquel se deixa arrastar pelas decisões de outras pessoas. Se uma escolha pode acabar com a sua vida, ao menos esteja certo de que quem decidiu foi você. “Enquanto caminhava e olhava para os meus sapatos fodidos, eu pensava que a vida é uma coisa
engraçada.Ela vai sozinha, como um rio, se você deixar. Você também pode botar um cabresto, fazer da vida o seu cavalo. A gente faz da vida o que quer. Cada um escolhe a sua sina, cavalo ou rio.”
Apesar de vermos sempre o personagem se afundar por suas próprias ações acabamos torcendo por ele. É um enredo original, diferente dos livros atuais e prende o leitor do começo ao fim. É impossível não ler o livro todo no mesmo dia e não ficar querendo ler mais livros da Patrícia Melo.

p.s: Há muito tempo queria ler esse livro, mas por culpa do curso e do trabalho fico nos clássicos e quando tenho um tempo livre tento algum lançamento, mas as histórias são sempre repetidas e convencionais. Sendo assim foi bom tirar um tempo para finalmente ler O Matador.

Quote:
"O homem é isso, um esquecedor. Esquece tudo. Esquece as coisas boas. As ruins, ele deposita no fundo do mar que há dentro do homem."
  





Resenha do livro O leão, a feiticeira e o guarda-roupa - Crônicas de Nárnia.

Título: As Crônicas de Nárnia - Volume Único
Autor: C.S. Lewis
Tradutor: Paulo Mendes Campos
Editora: Martins Fontes
Ano:2009 /2ª ed.
Páginas: 99 á 186


Sinopse - As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa - Volume 02 - C. S. Lewis

"Dizem que Aslam está a caminho. Talvez já tenha chegado", sussurrou o Castor. Edmundo experimentou uma misteriosa sensação de horror. Pedro sentiu-se valente e vigoroso. Para Suzana, foi como se uma música deliciosa tivesse enchido o ar. E Lúcia teve aquele mesmo sentimento que nos desperta a chegada do verão. Assim, no coração da terra encantada de Nárnia, as crianças lançaram-se na mais excitante e mágica aventura que alguém já escreveu.

Quatro irmãos vão morar em uma casa cheia de cômodos para explorar e descobrem em um guarda- roupa a passagem para um mundo mágico. Quem já leu o primeiro livro, O Sobrinho do Mago, sabe como esse guarda-roupa foi construído.  A atmosfera de fantasia é a mesma do primeiro livro, seres maravilhosos, acontecimentos imprevisíveis. Mas o fato é que Pedro, Suzana, Edmundo e Lúcia mal chegam à Nárnia e já a encontram dominada pela Feiticeira que se auto-proclamou rainha e transformou o tempo em eterno inverno. Eles esperam a chegada do grande Aslam, pois mesmo sem conhecerem sentem que tudo vai mudar na presença dele. Eles descobrem que fazem parte da história desse mundo mágico onde uma profecia já os mencionava.  Inevitavelmente são envolvidos numa grande batalha entre os seres do bem, aliados de Aslam, e seres macabros a comando da Feiticeira. Ao mesmo tempo testam suas próprias capacidades e fidelidade. Os irmãos são muito diferentes, enquanto Lúcia, a mais nova é a mais doce e meiga, Suzana assume um ar maternal, Pedro age como líder e protetor dos mais novos e Edmundo demonstra uma fraqueza de caráter, mas é amado pelos irmãos e acaba nos conquistando com seu arrependimento. É o tipo de livro para crianças que pode conquistar os adultos, apesar de fugir do lógico, dos conselhos como uma criança esperta jamais se trancaria em um guarda-roupa, aliás, é um conselho muito útil em um livro onde crianças vivem aventuras dentro de um guarda-roupa e isso poderia levar leitores a imitá-los. C. S. Lewis foi capaz de imaginar e reproduzir com palavras um mundo incrível, com personagens, situações, acontecimentos que só poderiam sair da mente de um gênio.







Devia ser a noite mais desagradável de sua vida, mas não era. Era um reencontro. Um reencontro com alguém do passado. Manuela se via menina com seus grandes olhos a admirar os santos no oratório da avó. Sentia medo e atração por eles. Uma curiosidade sem explicação fazia com que deixasse seus brinquedos para contemplar as imagens de madeira. Ninguém jamais podia mexer ali, eram proibidos pela avó.
Quando fazia uma travessura sentia necessidade de ir lá e pedir perdão à Virgem Maria por ser uma menina tão ruim e chorava rezando com medo do inferno. Um dia quando a avó saiu de casa não entendeu porque a tia quebrou os santos, quebrou todo o oratório, viu os pedaços no quintal, eram tão lindos, não conhecia todos, mas temia a todos e ficava deslumbrada diante deles. A tia lhe mandou ir embora, que não dissesse a ninguém o que viu. Só entendeu quando ouviu cochichos de que os santos guardavam um segredo, eram recheados de ouro. Se tinham realmente ouro nunca soube, pois eles desapareceram pra nunca mais.
Via tudo claramente no sonho, sua tia Emilia, como era na última vez que a viu viva. Ela não podia encontrar um descanso, lhe contou no sonho. Por culpa da ambição, não teve paz em vida, nem depois da morte. Precisava se libertar daquele tesouro maldito. Sim, existia ouro. E devia ser usado para servir o bem. Deveria ser encontrado e entregue à igreja, a uma família necessitada.
Manuela acordou entendendo tudo. Era a responsável para levar paz aquela criatura que vagava há anos com esse peso na consciência, viu a família na miséria sem nunca revelar o tesouro que havia encontrado e enterrado no quintal.
Mas onde? Não podia esperar, não podia dormir. Não sabia das horas. Levantou-se e caminhou pelas ruas desertas em plena madrugada. A antiga casa da família estava abandonada desde que praticamente todos os moradores saíram do povoado em busca do centro da cidade, mas não ficava longe. Logo chegou ao local e sem dificuldade encontrou a casa de sua infância. Onde viveu tanto, foi tão feliz e onde perdeu tanto. Sentiu saudade dos que se foram, tinha lembranças tão vagas. Chegou ao quintal pensando, afinal pra que serviram tantas ambições? Lembrava-se das brigas na partilha quando a avó morreu. Tia Emilia ficava com a casa e disso não abria mão. Ficou. Não foi feliz nunca. Jamais foi rica. Todos se convenceram de que não havia ouro nenhum. O lar disputado agora caia aos pedaços. Tão morto quanto a última moradora.
A lua iluminava perfeitamente o quintal e enquanto cavava sem saber exatamente como procurar, Manuela via o buraco embaixo de suas mãos aumentar. Sentiu uma sombra negra e de mãos macias lhe empurrar rumo ao vazio que se formava a sua frente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Não era impressão, estava sendo enterrada. Não havia mais o brilho da lua. Tudo era treva. Não era mais um sonho. Era real.


Título: As Crônicas de Nárnia - Volume Único
Autor: C.S. Lewis
Tradutor: Paulo Mendes Campos
Editora: Martins Fontes
Ano:2009 /2ª ed.
Páginas: 8 á 98

Sinopse - As Crônicas de Nárnia: O Sobrinho do Mago - Volume 01 - C. S. Lewis

A aventura começa quando Digory e Polly vão parar no gabinete secreto do excêntrico tio André. Ludibriada por ele, Polly toca o anel mágico e desaparece. Digory, aterrorizado, decide partir imediatamente em busca da amiga no Outro Mundo. Lá ele encontra Polly e, juntos, ouvem Aslam cantar sua canção ao criar o mundo encantado de Nárnia, repleto de sol, árvores, flores, relva e animais.




Um livro mágico. Um mundo mágico e uma incrível aventura. Toda criança já deve ter sonhado em morar em um casarão mal-assombrado ou abandonado ou cheio de passagens secretas, ou de preferência com tudo isso junto. Polly e Digory sonham com isso, assim que se conhecem, a amizade surge juntamente com a curiosidade pelo mistério que envolve o tio de Digory, André, e também um casarão vizinho abandonado. Mas na própria casa de Digory, graças ao estranho e inescrupuloso Tio André, eles descobrem que existem mundos mágicos e podem viajar até eles. Primeiro encontram um bosque que serve de passagem para outros mundos, depois um mundo que foi destruído pela ambição de sua rainha, a feiticeira Jadis, e ainda, sem querer, arrastam Jadis para o mundo deles, o mundo real.
O mais mágico acontece quando Digory e Polly tentam levar a feiticeira de volta para seu mundo, Charn. Eles chegam com ela, Tio André, um cavalo e um cocheiro num lugar onde existe o nada absoluto e presenciam a criação de um mundo novo, onde animais têm o dom de falar, cavalos podem ser alados, animais selvagens cantam e riem juntos, esse mundo chama-se Nárnia! Digory não consegue tirar da cabeça que algo desse mundo, uma fruta, talvez possa salvar sua mãe que se encontra muito doente, mas o criador de Nárnia, o leão Aslan se preocupa com o mal instalado em seu recém-criado mundo por causa da feiticeira trazida por Digory. O menino promete fazer o possível para ajudar a diminuir esse mal e, junto com Polly e o cavalo alado, viaja numa aventura pelo novo mundo.
Definitivamente é um livro para qualquer idade, até porque, promove uma viagem à fantasia, histórias de sonhos. O marcante é o caráter dos personagens, quem é do bem se preocupa, se arrisca pelos outros, que é do mal age só pensando em si e em seus desejos. Um livro fascinante e empolgante do começo ao fim. Se você se concentrar bem na leitura poderá sentir a relva, ver a luz de diferentes sóis, respirar o ar fresco de um mundo novo ou escasso de um mundo em seu fim, experimentar a sensação de estar no nada pela primeira vez e ouvir o canto de Aslan chamando as criaturas para existirem.




Muitas vezes precisamos nos aprofundar na leitura de algum livro, mas só encontramos resumos superficiais, ou desejamos nós mesmos fazer uma análise do livro e não sabemos por onde começar. Percebi, há tempos, que a internet tem muita informação, mas pouca coisa que realmente seja digna de ser lida ou vista, por outro lado, há trabalhos magníficos que não são divulgados o suficiente e acabamos não conseguindo encontrar em uma busca simples no Google, por exemplo. Então vou fazer desse post um depósito de links de onde e como estudar livros e literatura.

Lista de vídeos Introdução à Teoria da Literatura

Esse blog aqui é muito bom:  Travessia poética


Vi essa coluna em alguns blogs e, como tudo que é bom merece ser copiado, trouxe-a para cá, pelo menos uma vez por mês, vou dedicar uma postagem a um personagem que eu ame. E vou começar com a que eu mais me identifico.

( O Texto contém spoilers sobre o livro As Meninas - Lygia Fagundes Telles)

Lorena Vaz Leme é personagem do livro As Meninas de Lygia Fagundes Telles, o romance conta ainda com suas amigas Ana Clara e Lião. Elas são muito diferentes, mas são amigas. Lorena, Lena, Leninha é uma representante da burguesia, vive em época de ditadura, mora em um pensionato de freiras onde conheceu as outras meninas, mas isso é só o pano de fundo. 

Há muito mais que se observar na personagem. Lorena é cultíssima, cursa Direito, ama Latim, ouve Jimmi Hendrix. Seu passado é triste e deixa um mistério no ar, ela fala, lembra do irmão Remo, que morreu depois de um tiro acidental dado pelo outro irmão, Rômulo. Depois da tragédia o pai suicidou-se, Rômulo viaja pelo mundo para esquecer, mas nunca esquece, dos países que visita sempre lhe manda sinos e lembranças, a mãe é meio pirada, vive um casamento fracassado com um homem mais novo, nega para Lião a ocorrência do acidente. Então Lorena imaginou tudo ou é sua mãe que prefere fingir que não aconteceu? Lorena chama seu quarto de minha concha, é lá que ela se esconde do mundo “gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo, mas sem entrar nele, é lógico”
e espera o telefonema de seu amado M.N, Marcus Nemesius, médico, casado, pai de cinco filhos, ele nunca liga. "Não era amada? Não, certamente não.
Mas continuaria amando amando amando até - morrer, não.
Até viver de amor."
Lorena não é muito de ação, é mais de sonhar e esperar, mas toma uma atitude decisiva na hora da morte de Ana Clara, é ela que resolve tudo. "Tem mulher-hino e mulher balada. Eu sou uma balada medieval." O romance é do tipo que deixa o final meio aberto, mas sabemos que ela se prepara para deixar a concha e ir morar com a mãe, o que para Lião e para mim representa um retrocesso, mas o avanço se dá na vida amorosa, ela parece disposta a dar uma chance a um novo sentimento.

No cinema, Lorena foi interpretada por Adriana Esteves.