Eu não sei direito por onde começar, nem porque começar, só sei que  eu tenho que escrever, se eu não escrever alguma coisa agora, eu posso morrer ou enlouquecer, se bem que muitos já me consideram louca mesmo e talvez morrer não faça muita diferença, eu não sou daqui, não sentiriam muito minha falta. Não que eu não seja realmente daqui. Tem pessoas que não nasceram em um lugar, mas aí elas vão pra esse lugar e se encaixam e se encontram e acabam ficando como se fossem desse lugar. Comigo foi ao contrário, eu nasci num lugar e depois descobri que não pertencia a ele. Não foi logo no começo, ou foi, deve ter sido logo no começo, eu é que não percebi. Pensando bem, agora lembro que, quando era criança, alguns adultos me olhavam como se soubessem que eu era diferente, provavelmente até as crianças sentiam, porque os que as crianças não sabem elas sentem. Mas eu era uma criança despreocupada, não me dava conta de nada. Quando eu nasci já tinha uma irmã e ela era como todas as irmãs mais velhas, implicante, bonita, favorita dos pais. Incrível como ela era como os outros. E meus pais também, absolutamente iguais aos outros, meu pai concertava coisas, geladeiras e coisas do tipo, mas elas não passavam muito tempo concertadas e os clientes voltavam reclamando. Minha mãe era mãe e esposa, o que mais ela seria? Eu estudava, via TV com eles, brincava com a molecada da rua, uma vez roubei um coelho de pelúcia numa loja com meu primo, tudo isso me fazia me sentir normal, só que eu acordava cedo demais. Claro que não tem problema em acordar cedo, só que eu não tinha porquê, eu acordava cedo e inconscientemente procurava algo no céu, eu não sabia o que era, mas sabia que tinha que haver algo a mais. Além das nuvens, do vento, do sol nascendo, isso tudo parecia estrategicamente colocado para esconder algo. Incrível como as nuvens insistem em encobrir tudo. E se eu pudesse ver além delas? Mas não tinha jeito, elas nunca me deixariam ver, deviam ser programadas pra isso. Um dia eu comecei a suspeitar de algo errado no universo, foi na casa de uma amiga do colégio, amiga não, uma menina com quem eu fazia trabalhos escolares, eu tinha uns doze anos e foi a primeira vez que tive certeza que havia algo errado comigo. A mãe da minha colega me olhou bem nos olhos com certo susto. Eu não tenho certeza se era susto ou pena, mas havia algo em meus olhos que a perturbava. Ela chegou mesmo a exclamar “Que menina estranha!”. Não lembro bem, mas foi algo assim. Senti-me culpada. Comecei a me sentir só, ou perceber o quanto era só. Apartir daí, eu tive medo que todos percebessem que eu era diferente e o pior é que eu não sabia onde estava a diferença, algo dizia que estava em meus olhos, ninguém saberia me explicar onde estava meu problema, mas todos sentiam e aos poucos se afastavam. Eu conseguia manter relações superficiais, mas uma hora todos acabavam descobrindo meu segredo e iam embora sem despedidas. Eu era adolescente e sofri e chorei muito por isso, porque nessa época todos andam em bando e eu não me encaixava em nenhum. Mas a minha salvação estava próxima, um dia arrumando uns antigos cadernos, encontrei um livro bem velho, amarelado e com aquele cheiro gostoso de mofo. Em cada página eu tinha uma surpresa, eram personagens variados que viviam em uma realidade paralela, talvez outro mundo. E o mais incrível: todos iguais a mim. Não na forma do corpo, ou algo superficial, mas ao ver seus olhos eu me reconheci.  Não entendi como nunca havia notado isso, meus olhos eram diferentes de qualquer coisa desse mundo. Desde esse dia eu passei a procurar semelhança em outros olhares. Agora eu sabia que pertencia a alguma lugar, só precisava encontrá-lo. Eu mudei meus hábitos porque nos horários normais só encontrava gente convencional. Eu passei a adolescência tentando me encontrar. Em lugares estranhos, na madrugada, em substâncias proibidas, livros ignorados, companhias marginalizadas. Passei a rejeitar os que sempre me rejeitaram. Às vezes eu sentia que estava perto, só que o tempo passava e eu não achava meu lugar. Até que quando menos esperava encontrei um dos meus numa rede da internet, eu o reconheci de cara e porque me identifiquei contei toda minha história, sabia que ele me entenderia, era como se nossos olhos se comunicassem e existisse um caminho invisível entre eles, ele me contou a verdade, existia sim um outro mundo, um universo paralelo e me falou que existia um caminho, uma fronteira por onde eu poderia atravessar pra lá, só não sabia como encontrar a fronteira. Claro que ela era invisível, uma coisa assim, na cara de todos daria muita confusão, ele prometeu entrar em contato com as autoridades, me falou pra esperar um sinal. Eu esperei, foram uns dois anos trancada no quarto, eu não queria fazer outra coisa além de ler o tal livro e pensar no meu mundo. Eu já era adulta, meu pai deixou de existir, minha irmã casou e teve dois filhos. Minha mãe se cansou, da vida, do trabalho, de mim. Um dia ela falou em me internar. Eu tive que parar de esperar. Enfrentar os que sempre me rejeitaram e tentar me disfarçar pra viver entre eles. Foi difícil, mas consegui. Comecei a trabalhar em um escritório, eu sorria para todos, às vezes chegava de mal-humor porque os preços das coisas aumentaram ou qualquer outro motivo sem importância, era só pra disfarçar, mostrava fotos dos sobrinhos e falava do meu sonho de uma dia casar e ter os meus filhos. Aos domingos ia à missa e conversava sobre as roupas que estavam na moda ou como seria bom ir descansar uns dias na praia. Às vezes eu me trancava no quarto e tinha vontade de gritar, mas não podia estragar tudo, percebi que na companhia dos outros era mais fácil me controlar, então comecei a evitar ficar sozinha e me esforçar pra ser uma companhia tolerável. Aprendi a dançar e frequentar lugares que todo mundo achava legal. Quando uma amiga aparecia de visual novo, fazia direitinho a cara- de –quem- elogia-morrendo-de-despeito. Paquerar era mais difícil porque tinha que fingir que estava fingindo não ter interesse. Os banais são tão complicados, não que eu nunca tivesse me interessado de verdade por um deles, eu amei até, mas ele era normal demais pra ver alguma graça em mim. Enquanto eu ainda estava me procurando, ele casou com uma professora bonitinha de cabelos lisos castanhos que também vai à igreja todo domingo. E ao shopping à tarde. Eu casei bem depois, com um colega do escritório, não foi amor, não foi nem amizade, ele só apareceu e todo mundo já reparava que eu tinha passado da idade e eu precisava disfarçar. Foi quando eu não esperava que eles apareceram, chegaram na rua do meu trabalho, num veiculo grande,preto. Dois homens e uma mulher, claro que eu reconheci de cara. Vieram me buscar, meu coração disparou, finalmente. Mas eu fiquei pensando no que todo mundo ia falar se me vissem falando com três estranhos na rua, porque eles eram bem diferentes e eu vi logo em seus olhos que eram, havia uma comunicação entre eles, de seus olhos jorravam raios que trilhavam um caminho transparente.  Pareciam procurar por alguém, se aproximaram, nossos olhos se encontraram, olhei fixo nos olhos de cada um deles, depois eles se olharam uns aos outros, confusos. O mais alto me olhou mais uma vez e com um ar decidido fez um gesto para os outros e foram embora. Eu me desesperei e quis gritar “Esperem, é um engano! É a mim que procuram!” Mas eu tive vergonha de gritar, e tinha tanto trabalho a fazer e tanta coisa me esperando. Eu fiquei imóvel enquanto eles iam embora pra o lugar que eu sempre sonhei em ir, eu não tinha mais forças pra tentar me encontrar. E todos ao redor haviam percebido, eles disfarçavam, mas saíram todos pra examinar furtivamente os estranhos.Não consegui identificar logo o quê, mas algo em mim mudara tanto a ponto de não conseguir me comunicar com aqueles que sempre esperei

Agora estou aqui, sozinha, com frio na certeza que fiquei no meio da fronteira e que ninguém em nenhum dos mundos existentes será capaz de me reconhecer como igual.


5 Comentários

  1. Confesso que quando vi seu texto, pensei que seria dureza ler, afinal não gosto muito de blogs literários ou no formato diário.

    Mas eu comecei a ler...

    De início fiquei preocupado, depois curioso.

    Não se abale com o que as pessoas acham de você, eu sei que isso é cliché, mas é a verdade. Quem é estranho e quem não é? O que é ser normal?

    Aproveite a vida, saia do quarto.

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    1. Curioso isso que você falou, acho que sempre precisamos sair do quarto,do armário,dar um foda-se pro mundo, eu já fiz isso,mas às vezes não me sinto muito feliz mesmo tendo feito.
      obrigada pela visita.

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  2. Obrigada por seguir...tb estou te seguindo....muito bom o blog, parabéns!!!
    Bjsss =]

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  3. Respostas
    1. obrigada, Aline,eu adoro seus textos,posso dizer que sou fã mesmo, fiquei feliz em te ver aqui :)

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