Um romance poético e musical, foi a primeira impressão que tive deste livro de Teolinda Gersão. Na primeira parte a protagonista Gita narra sua infância na Moçambique do período colonial (ei, a protagonista é ela ou a árvore das palavras?), filha de brancos pobres, Gita divide a casa em a parte branca onde não há alegria, onde ela não faz parte, apesar de ser aí que se encontra sua mãe Amélia. Gita gosta mesmo é da parte preta da casa,é lá ela e o pai Laureano sentem-se felizes, com sua ama de leite Lóa, e as quase irmãs negras.Gita não se identifica com  a mãe, mas tem uma ligação profunda com o pai que faz parte do mundo que lhe dá segurança durante a infância.
" Um homem bom é uma luz na janela. As coisas ganham limite e solidez, brilho e cor, e eu caminho dançando por entre elas.É porque estou segura que ganho a liberdade de dançar, é porque não tenho medo que improviso, é porque ignoro a rotina que me entrego ao fulgor."
Na segunda parte é desvendada a história de Amélia, de como ela deixou Lisboa depois de casar à distancia com Laureano a quem conheceu através de um anuncio no jornal. Amélia está sempre distante de sua realidade, sempre a sonhar com a vida das mulheres da sociedade, vai para esse casamento praticamente empurrada pela madrinha e desiludida com um namorado que a trocou por outra, mas nunca consegue ser feliz com sua própria vida, nunca se conforma com a realidade.
Na terceira parte Gita é uma jovem mulher, consegue juntar vestígios da mãe e compreendê-la, Amélia foi embora com um homem que conheceu também por um anuncio de jornal. Laureano sofre o abandono da mulher e envelhece largado aos cuidados da namoradeira Rosário que consegue engravidar dele, um passarinho sem asas que cai na mão da primeira que o apanha. 
Nessa fase Gita e Moçambique aspiram a liberdade.Senti falta de conhecer mais a história de Moçambique para entender melhor o romance, que pena que não estudamos a África na escola, parece até que somos mais próximos da Europa, pois só a cultura deles nos é empurrada desde cedo.
“Ela crescia nos sonhos, digo a Roberto enquanto pintamos o cartaz. A árvore das palavras. Para contornar o seu tronco seriam precisas nove luas. E cada folha era extensa como um vôo de pássaro. Mas de certeza que não só nos meus sonhos: Crescia também nos de toda a gente.”
Gita pertence à África e sente a injustiça da distinção entre brancos e negros.
“Até na missa de domingo esse modo de estar era visível. Sobretudo na Catedral, ou na igreja de Santo Antônio da Polana: os que podiam e mandavam iam lá para serem vistos, para cumprimentar e serem cumprimentados à saída, e era bem vestirem-se com toilettes caras, embora conviesse terem ao mesmo tempo um ar simples, por vezes quase desportivo, e se não fosse hipocrisia seria até bonito de ver. (…) Apesar do ar compuncto, concentrado e quase humilde que punham na altura da confissão e da comunhão. Mas era tudo impostura e fingimento, iam lá não para se sentirem iguais aos outros, mas para afirmarem a sua posição de privilégio, e saíam de lá para continuarem a viver da mesma forma, para que haviam de mudar alguma coisa se tudo estava tão bem organizado assim, eles reinando e os outros servindo, agora e para sempre amém. No entanto o padre voltava-se para todos e dizia abrindo os braços: Caríssimos irmãos. (…) Porque logo a seguir eles comem com talher de prata o caril dominical de camarão ou de lagosta, servido por criados negros de luva branca, diz Roberto. Enquanto nas palhotas os negros comem caril de gafanhotos e ratazanas gordas assadas no espeto, e de noite os ratos roem as crianças adormecidas”.

Roberto é um personagem que surge nesse terceira parte, junto com Rodrigo, namorado de Gita e outros amigos, a vida de Gita é livre, pois Laureano a deixa livre e ela não entende como vivem em Portugal. Mas é pra lá que ela vai, estudar em Lisboa, fazer o caminho inverso de sua mãe e isso faz parte da independência que escolheu. Na última cena a despedida de Laureano:
"À porta volto-me para trás e aceno. Mas não o vejo porque os meus olhos têm chuva e a noite desceu de repente."
Começar uma nova história, é isso que precisamos, olhar parar trás  ver que podemos avançar, mesmo que seja só e para o desconhecido.


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