Naquela época eu passava quase o dia inteiro na escola. Às vezes eu me irritava e me cansava de tudo, queria estar em casa, mas mamãe trabalhava e eu só tinha nove anos. Nesse dia eu estava tranqüila, conformada, a professora me ajudava em alguma tarefa quando ele chegou. Eu não percebia isso, mas eu estava tão em casa lá, eu via a minha professora e os meus colegas todos os dias e eu sabia muitas coisas sobre eles e eles sobre mim. Era como estar mesmo em casa, mas com meu próprio pai era diferente, quando eu o vi senti um misto de sensações, era uma ternura tão grande e ao mesmo tempo acanhamento, eu não sabia o que falar com ele. Fiquei no meu canto enquanto ele falava com a professora. Acho que eu também não tinha noção do quanto nos parecíamos, eu herdei muito das características dele. Então ele saiu da sala sem que nos falássemos e eu fiquei meio frustrada, depois perguntei à professora o que ele foi fazer lá. Eu ia passar o resto do dia com ele. Oh, uma tarde inteira com meu pai! Ele morava sozinho e eu fiquei brincando em silêncio. Lembro de seus cabelos brancos, os pais de meus amigos não tinham cabelos brancos, nem aquela calma no olhar. Eu tentei sentar na janela pra ver um pássaro que pousava na árvore em frente enquanto ele estava na cozinha e bati a cabeça na quina, fiquei sem saber o que fazer, vi que saia sangue e ele estava vindo, não me recordo da dor, nem nada, era uma sensação esquisita, como se estivesse na casa de um estranho e tivesse feito uma coisa errada. Inutilmente eu tentei tapar o sangue com as mãos e disse que estava bem. Mas era tanto sangue e não parava, comecei a ficar assustada, ele foi ao banheiro e trouxe uma toalha molhada, enxugou minha cabeça, fez um curativo, a toalha lá ensopada de sangue e ele tão sereno que não tive mais medo. Não lembro bem de suas palavras, mas os gestos ficaram, tão doces, sentou no sofá e me colocou no colo, assistimos TV. Adormeci com a cabeça em seu peito, aspirando um aroma gostoso de roupa lima, pele macia, quentinha, sentindo- o tão meu pai.


Um Comentário

  1. É tão bom sentir o conforto de uma presença paterna num momento de angustia, me deu até uma nostalgia este testo. Lembrei do zelo, do amor e carinho que podia usufruir constantemente quando criança. Mas ai a gente cresce, casa, vai morar longe...
    Não que meus pais não me papariquem, até hoje são super corujas e protetores, só que agora os netos são mais paparicados do que os filhos. rs...
    belo texto

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