Memorial de Aires Resumo / Análise

 Memorial de Aires Resumo / Análise

Memorial de Aires: Uma análise da estrutura da narrativa e gêneros
* Andreza Freitas
Anderson Cleyton
Daniele Cristina da Silva
Marília Fonseca
Suelza Suzany Campelo.

Memorial de Aires Resumo:

O presente artigo tem como objeto de estudo o último romance de Machado de Assis, Memorial de Aires. Com base em teóricos como Aguiar e Silva, Benjamim Abdala Junior, Mikhail Bakhtin e outros tão influentes quanto, o livro será analisado com foco na estrutura da narração e gênero textual.
Palavras – chave: Machado de Assis, Memorial de Aires, Diário, Romance.

Memorial de Aires  Análise - Introdução

A intertextualidade e a Intergenericidade estão presentes em boa parte da obra de Machado de Assis, com Memorial de Aires não é diferente. O personagem Conselheiro Aires, mesmo não sendo o protagonista, une os romances Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Depois de figurar em Esaú e Jacó, ele ressurge com um memorial, misto de diário e romance que narra suas observações e convivência com o casal Carmo e Aguiar e as aventuras de seus quase filhos adotivos Fidélia e Tristão.
Memorial de Aires figura junto com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó na lista de romances Realistas de Machado de Assis. Alguns críticos literários consideram, porém, que essa obra representa um retorno à fase romântica do autor, devido à suavidade e ao fato de que a ironia ácida é deixada de lado na narração do Conselheiro Aires. Na realidade, observa-se que algumas características de Assis encontram-se refinadas nesse Memorial, Aires tem um talento de observador humano bem maior que Brás Cubas, por exemplo, ele conta pouco de si, mas sua experiência lhe permite conhecer a alma humana pelos menores gestos.
Aspectos referentes à estrutura da narrativa e a intergenericidade presentes na obra
Analisando os personagens de Memorial de Aires, percebe-se que todos são, segundo a classificação de Foster, personagens planos, ou seja, eles não surpreendem o leitor com mudanças bruscas de comportamento e personalidade, esse fato só não ocorre com Fidélia, ela é uma viúva que viveu um verdadeiro “Romeu e Julieta”, se apaixonou por um rapaz cuja família era inimiga da sua, os dois superaram as opiniões dos parentes e casaram-se, mesmo sabendo que nunca teriam o apoio e a amizade dos pais, pouco tempo depois o marido de Fidélia faleceu. Como já não podia contar com o pai, Fidélia recorre à amizade do casal Carmo e Aguiar, ela está decidida a não voltar a se casar e é de opinião da maioria que ela realmente não se casa. Entretanto, ao conhecer Tristão, Fidélia transforma-se e surpreende a todos, nos pequenos gestos observa-se uma grande mudança, ela passa a tocar piano, desenhar e logo depois aceita se casar com o rapaz.
Todos esses acontecimentos são escritos por Aires em um diário ou memorial, uma coleção de cadernos em que o diplomata anota tudo que acontece àqueles que observa. O diário e o próprio Aires fazem parte de mais uma magnífica estratégia de narração de Machado de Assis, abalando inclusive a definição do gênero. Diário, romance ou romance-diário?
Fica claro, com a leitura, que trata-se do que Koch e Elias caracterizam como intertextualidade inter gêneros ou hibridização e Marcuschi denomina intergenericidade, muito comum nos dias modernos, um gênero que se apossa da forma de outro, mas continua com sua função. No caso temos um romance na forma de um diário.
Além da mistura de gêneros, é marcante em Memorial de Aires a intertextualidade e a intratextualidade. A própria história de Fidélia contém um diálogo com Shakespeare:

14 de Janeiro
“A única particularidade da biografia de Fidélia é que o pai e o sogro eram inimigos políticos, chefes de partido na Paraíba do Sul. Inimizade de famílias não tem impedido que moços se amem, mas é preciso ir a Verona ou alhures. E ainda os de Verona dizem comentadores que as famílias de Romeu e Julieta eram antes amigas e do mesmo partido; também dizem que nunca existiram, salvo na tradição ou somente na cabeça de Shakespeare.” (ASSIS, 2008, p. 18)
E esse não é o único caso de intertextualidade, pelo contrário, os exemplos são variados e vão de poetas a músicos, Aires repete enfaticamente um verso atribuído a Shelley:
“Não pensei logo em prosa, mas em verso como lá ficou dito atrás, e tirado de uma das estâncias de 1821: ‘I can give not what men call love’. (ASSIS, 2008, p. 22)
Mas o tipo de intertextualidade mais marcante na obra é a intratextualidade,isto é, os romances de Machado de Assis dialogam entre si, acontece com Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas e acontece com Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Assim como sua irmã Rita, Aires aparece primeiramente em Esaú e Jacó, é um dos personagens e um dos narradores:

“Não cuides que não era sincero, era-o. Quando não acertava de ter a mesma opinião, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava também guardar por escrito as descobertas, observações, reflexões, críticas e anedotas, tendo para isso uma série de cadernos, a que dava o nome de Memorial.” (ASSIS, 2010, p. 19)
Os romances não são continuação um do outro, os personagens principais são diferentes e eles não se conhecem, o ponto de ligação entre as duas obras é a presença desses personagens, Aires e Rita.
A classificação de um narrador machadiano da segunda fase é uma tarefa complexa que requer bastante atenção para se tentar captar ou absorver as pistas e minúcias deixadas pelo sofisticado arsenal de estratégias utilizadas por Machado na composição de suas obras. No caso de Memorial de Aires, o título, a forma estrutural do texto e os indícios deixados ao longo da narrativa são de extrema importância para a identificação do narrador machadiano presente na obra analisada. Um desses primeiros indícios pode ser percebido de forma clara e contundente e se refere ao fato de o Conselheiro Aires ser um narrador-personagem, isso porque ele é a persona ficcional responsável por escrever o diário, gênero textual presente na estrutura da narrativa, e pode ser percebido em passagens como essa: “Não quero acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos cansados, acaso doentes, e que não sei se continuarei este diário de fatos, impressões e ideias. Talvez seja melhor parar.”(ASSIS, 2008, p.81) Entretanto apesar de ser o personagem que escreve o diário e por conseguinte narrador dos acontecimentos da diegese, além de ter o seu sobrenome no título da obra o Conselheiro Aires não se configura como um narrador autodiegético que Aguiar e Silva (1984) define como aquele que além de ser um dos personagens da trama é o seu protagonista. Isso acontece porque a atitude mais frequente assumida pelo diplomata aposentado é o de observador,
embora haja momentos na narrativa em que Aires volta-se para seus atos, pensamentos e lembranças das quais são exemplos essas passagens: “[...] estive a rasgar cartas velhas são boas, mas estando eu velho também, e não tendo a quem deixar as que me restam, o melhor é rasgá-las.”(ASSIS, 2008, p.62) e “A data de hoje (revolução de 1848) lembra-me a festa de rapazes que tivemos em São Paulo, e um brinde que fiz ao grande Lamartine. Ai, viçosos tempos! Eu estava no meu primeiro ano de direito.”(ASSIS, 2008, p.38). Apesar de passagens como as acima a atitude que predomina na narração do Conselheiro Aires é de observador, em que acompanha com interesse os acontecimentos e vicissitudes relacionados à vida de outros personagens como é o caso do casal Aguiar, Tristão e, principalmente, Fidélia a quem tem especial interesse chegando inclusive a revelar o desejo de investigá-la : “Escuta, papel. O que naquela dama Fidélia me atrai é principalmente certa feição de espírito, algo parecido com o sorriso fugitivo, que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la se tiver ocasião.”(ASSIS, 2008, p.41). Prova disso é a narração inscrita no dia 4 de fevereiro de 1888 ao qual se dedica a narrar fatos relacionados ao casal Aguiar desde o início do relacionamento, não sem antes explicar o porquê faz isso “A razão que me leva a escrever isto é a que entende com a situação moral dos dois e prende um tanto com a viúva Fidélia.”(ASSIS, 2008, p 27.). São muitos os momentos em que o Conselheiro Aires dedica sua atenção não só aos fatos, mas também a reflexões cujo alvo é a viúva Noronha
Vou reconhecendo que esta moça vale ainda mais do que me parecia a princípio. [...] O maior valor dela está, além da sensação viva e pura que lhe dão as cousas, na concepção e na análise que sabe achar nelas. [...] Realmente, é um lindo pedaço de gente, com uma dose rara de expressão. (ASSIS, 2008, p 64)

Enfim o narrador-personagem que é o Conselheiro dá bastante destaque em sua narração a além dos acontecimentos e reviravoltas pertinentes às personagens citadas, os seus comportamentos, sentimentos e até seus pensamentos, mesmo não tendo acesso aos reais pensamentos e sentimentos dos que estão a sua volta o ex-diplomata, agudo observador, tenta interpretar o que se passa no interior delas a partir de pistas que essas deixam transparecer seja pela fisionomia, seja pelos atos: “D. Carmo espera que os dias serão abreviados logo que receba o bilhete do marido. Não mo disse a mim, quando lá estive ontem à noite, nem ouvi a ninguém; eu é que pensei haver-lho lido no rosto” (ASSIS, 2008, p 111). O trecho acima é apenas um exemplo para explicitar duas
características importantes do narrador de Memorial de Aires, a primeira é que esse se encaixa na classificação que Aguiar e Silva (1984, p.761) de homodiegético que acontece quando “ narrador é co-referencial com uma das personagens da diegese, participando da história narrada[...]” o autor continua dizendo que esse tipo de narrador pode ser desempenhado por uma personagem secundária que é o que parece acontecer com o Conselheiro Aires. Este narrador também pode ser denominado segundo a tipologia de Norman Friedman de “Eu” como testemunha
É um foco de primeira pessoa, onde o narrador é uma personagem de menor relevo e que relata fatos ocorridos com o personagem central ou personagens centrais [...] o narrador só consegue narrar o que viu ou pesquisou, não conseguindo penetrar na consciência das personagens. (ABDALA JUNIOR, 1995, p. 28)

A segunda característica importante do narrador de Memorial de Aires é que esse é limitado, ou seja, não sabe de todas as coisas que acontecem ao seu redor, apenas conhece os fatos que presencia ou aqueles que lhe são revelados graças a intervenção de uma outra personagem que lhe conta alguma nova informação ou fato: “Chegou Tristão. Ignoro o que terá lido nas cartas de Lisboa, não falei a nenhuma das pessoas que poderiam sabê-lo”(ASSIS, 2008, p. 111)
Uma das características mais marcantes da obra está presente na constante preocupação em situar temporalmente quando os fatos aconteceram, em que o narratário geralmente recebe informação sobre em que dia se passou os acontecimentos algumas vezes chegando a conhecer o horário em que esses ocorreram “Miranda morreu ontem às dez horas; enterra-se hoje às quatro.” (ASSIS, 2008, p 38) “... Rita escreveu-me agora (seis da tarde) pedindo que a espere amanhã, à noite, para irmos juntos ao Flamengo. Vou; há seis dias que lá não piso.” (1889, 23 de janeiro) Outra particularidade presente na construção da narrativa que também contribui para marcar a passagem gradual do tempo se deve ao fato da adoção da forma estrutural do diário em que ao invés da tradicional divisão em capítulos o livro de Machado passa a ter a data do dia, indicada pelo dia e mês, exercendo essa função. Não é raro que durante a narração correspondente a uma data haja uma subdivisão marcada pela representação do horário como acontece no dia “25 de fevereiro do ano de 1889” em que na primeira parte o narrador conta uma conversa que teve com sua irmã Rita, episódio em que ambos relembram a aposta feita entre eles no ano anterior e depois tratam do casal
Tristão e Fidélia, logo após ao resumo que o narrador faz da conversa há um pequeno espaço , uma pausa, uma interrupção no ato de escrever o diário, ato posteriormente retomado pela inscrição “Seis horas da tarde” em que o Conselheiro diz ter acabado de voltar da rua e conta uma informação que ele havia esquecido de revelar mais cedo naquele mesmo dia. Outra demarcação temporal relevante dentro da obra , esta de cunho mais abrangente se trata dos anos, os dois que abarcam a confecção do diário estão destacadamente postos e inscritos em cada começo de ciclo anual do diário, são eles: 1888 e 1889. Esse é um dos fatores que permitem perceber que a estória contada pelo Conselheiro Aires se passa num período que começa em janeiro de 1888 e termina em meados do mês de setembro do ano de 1889. De acordo com o que foi colocado sobre o tempo presente na narrativa é possível classificá-lo como predominantemente linear, tempo cronológico, isto é, tempo da história que segundo Abdala Junior (1995, p.54) “[...] aparece numa sucessão cronológica de eventos: a personagem está com 20 anos, depois 22 [...] Essa sucessão pode ser explicitada pelo narrador ou deduzida pelo leitor [...] além da marcação cronológica, o tempo do relógio aparece com frequência.” Entretanto não é possível deixar de notar que a narração do Conselheiro Aires baseia-se em sua memória, tudo que é contado é filtrado por essa. Esse é o motivo dos verbos serem geralmente empregados no pretérito: “Sucedeu como eu cuidava. Tristão achou todas as passagens de 24 vendidas.”(ASSIS, 2008, p.135) No entanto o distanciamento entre os acontecimentos e a narração, geralmente, não é longo. Muitas vezes o Conselheiro Aires narra o que aconteceu um dia depois do ocorrido, ou no mesmo dia. Todavia há momentos em que essa distância é maior:
Eu nunca esqueci cousas que só vi em menino. Ainda agora vejo dous sujeitos barbados que jogavam o entrudo, teria eu cinco anos; [...] ficaram inteiramente molhados e foram pingando para suas casas. [...] Outra cousa que igualmente me lembra, apesar de tantos anos passados, é o namoro de uma vizinha e de um rapaz.(ASSIS, 2008, p.60)

Tudo isso acarreta ao romance fortes traços do tempo psicológico que segundo Abdala Junior (1995, p. 54) é “ o tempo cronológico distorcido em função das vivências subjetivas das personagens.” Devido a essa presença simultânea dos dois tempos é possível identificar o tempo do livro Memorial de Aires como predominantemente cronológico com traços do tempo psicológico.

O espaço que serve de plano de fundo para o desenrolar da ação do livro Memorial de Aires é o Rio de Janeiro do final do século XIX, sendo os bairros do Catete, Andaraí, Flamengo e Botafogo os que aparecem com maior frequência e onde acontece um grande número de cenas importantes para a história.


Considerações Finais

Com o apoio de teóricos como Marcuschi, Koch e Elias podemos entender e perceber a estratégia utilizada por Machado de Assis de criar um romance com características formais do gênero diário configurando assim uma hibridização que permitiu que o romance machadiano assumisse a forma do gênero diário escrito pelo Conselheiro Aires. Foi também possível observar o quanto esse romance da segunda fase do autor possui uma das mais importantes características dessa fase que é o interesse, a observação do comportamento humano que, dentro da obra, é realizado pelo Conselheiro Aires com bastante maestria. Através da análise do livro também foi possível perceber o uso na construção da obra da intertextualidade a da intratextualidade recursos que, como é sabido, fazem parte do leque de artifícios narrativos amplamente empregados por Machado de Assis em suas obras. Em relação a Memorial de Aires foi observado além da intertextualidade com Shakespeare e Shelley a intratextualidade entre o romance analisado e o livro do mesmo autor Esaú e Jacó. 

Referências

BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. S. Paulo Martins Fontes. 2000.
COSTA VAL, Maria da Graça. Produção escrita; trabalhando com os gêneros. CEALE/FAE/UFMG ET AL. Belo Horizonte - MG. 2007.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2008.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. pp. 146-225.
AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. Coimbra: Livraria Almeida, 1984
JUNIOR, Benjamin Abdala. Introdução à análise da narrativa. São Paulo: Scipione, 1995
ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. Porto Alegre: L&PM, 2008
ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Santa Catarina: Editora Avenida, 2010


Resumo da análise de Memorial de Aires






1. Memorial de Aires Machado de Assis – 2º fase

Tendências realistas:


2.• Obras: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires.
• Características Gerais:• Análise psicológica (os seres vistos em sua complexidade psíquica)• Análise dos valores sociais (os valores que a sociedade cria para justificar sua própria existência)• Pessimismo (descrença nos indivíduos e na organização social)•• Refinamento da linguagem narrativa.


3. Enredo -  Memorial de Aires Resumo: O conselheiro acompanha com interesse humano (talvez amoroso) a jovem viúva Fidélia, praticamente adotada por um casal de velhos sem filhos, Dona Carmo e Aguiar. Estes tinham experimentando uma grande decepção quando um rapaz a quem se afeiçoaram, como se fosse seu filho verdadeiro, Tristão, mudara-se para Lisboa com o fim de frequentar a escola de medicina. Tristão retorna e acaba se casando com Fidélia.

4. Em seguida, para tristeza dos velhos, o jovem casal viaja para Europa.O romance termina com o Conselheiro Aires acompanhando com discreta piedade a solidão do casal Aguiar e Carmo, no qual muito críticos viramas figuras de Machado e de sua esposa, Carolina.


5. Memorial de Aires  - Personagens

 Personagem é um ser fictício que representa uma pessoa em uma história.Hoje são utilizados os termos personagens planas e personagens redondas, de Foster nas narrativas para classifica-los. A personagem plana é previsível quanto ao seu comportamento, ela não muda. Enquanto a personagem redonda é uma construção mais complexa, que permite surpreender porque ela evoluem na narrativa.

6. Em memorial de Aires encontramos os personagens:

• O Conselheiro Aires - Um diplomata aposentado observador das sutilezas do comportamento humano e da vida social e política do país, Viúvo.• Rita – Irmã do conselheiro Aires, era viúva sem filhos, morava em Andaraí.• Fidélia - Filha do Barão de Santa Pia. Fidélia casou-se com Eduardo sem o consentimento dos pais, mesmo após o falecimento do esposo, o pai não lhe perdoou. Morava com o tio e tinha o casal Aguiar como amigos íntimos.

7. • D. Carmo - Pessoa afável e meiga, não tinha filhos e era casada com Aguiar, tinha um grande amor maternal por Fidélia e Tristão.• Aguiar – Marido de Dona Carmo, era gerente de um banco, morava na praia do Flamengo.

• Desembargador Campos – Um homem viúvo tio de Fidélia, foi colega de colégio de Aires em São Paulo.• Tristão – Afilhado do casal Aguiar, foi para Lisboa com os pais voltando muitos anos depois. Em Lisboa formou-se em medicina, entretanto volta-se para a carreira política. Casa-se com Fidélia e volta com ela para Lisboa.• Dona Cesária – Uma mulher que gosta de falar da vida alheia. Todos estes personagens são planos,menos Fidélia.


8. Memorial de Aires Análise do Contexto Histórico:
Percebe-se o momento histórico, porém trara-se apenas de um pano de fundo para a história dos personagens.
 "13 de maio Enfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser, propagandista da abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação final do Senado e da sanção da Regente. Estava na rua onde a agitação era grande" ( ASSIS, Machado de. p.44) 
"14 de maio, meia-noite Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular. Saí agora do Flamengo, fazendo esta reflexão, e vim escrevê-la, e mais o que lhe deu origem." (ASSIS, Machado de. p.45)


9. Tipologia do romance Romance de personagem “Romance caracterizado pela existência de uma única personagem central, que o autor desenha e estuda demoradamente e à qual obedece todo o desenvolvimento do romance.” Aguiar e Silva (pág.685.1984)


10. Memorial de Aires Análise do narrador Segundo a tipologia de Norman Friedman o narrador de Memorial de Aires pode ser denominado de “Eu”como testemunha: É um foco de primeira pessoa, onde o narrador é uma personagem de menor relevância e que relata fatos ocorridos com o personagem central ou personagens centrais [...] o narrador só consegue narrar o que viu ou pesquisou, não conseguindo penetrar na consciência das personagens.(JUNIOR, 1995, p.28)


11. O interesse é tão vivo que o Conselheiro chega a confessar em seu diário o desejo de estudar Fidélia: 8 de abril Escuta, papel. O que naquela dama Fidélia me atraí é principalmente certa feição de espírito, algo parecido com o sorriso fugitivo, que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la se tiver ocasião.

12. O gênero textual KOCH & ELIAS (2008, p. 114) conceituam que ―A hibridização ou a intertextualidade intergêneros é o fenômeno segundo o qual um gênero pode assumir a forma de um outro gênero. Marcuschi (2008) e Koch & Elias(2008)apresentam os termos intergenericidade e hibridismo para fazer referência ao mesmo fenômeno de constituição de textos.

13. Em Memorial de Aires predominam: O Diário - É um dos gêneros da literatura autobiográfica. Ocorre o registro das vivências e sentimentos de um Eu, que, face ao mundo que o rodeia, possui, um caráter intimista e confidente. O diário é o testemunho cotidiano, por vezes com algumas descontinuidades, que fixa, através da escrita, fatos, desejos, emoções.
 O Romance - vem a ser a forma narrativa que, embora sem nenhuma relação genética com a epopeia[...] a ela equivale nos tempos modernos. E, ao contrário da epopeia, como forma representativa do mundo burguês, volta-se para o homem comum indivíduo. (SOARES, 1993, p.42)


14. 21 de agosto, 5 horas da tarde “ Não quero acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos cansados, acaso doentes, e não sei se continuarei este diário de fatos, impressões e ideias. Talvez seja melhor parar. Velhice quer descanso. Bastam já as cartas que escrevo em resposta e outras mais, e ainda há poucos dias um trabalho que me encomendaram da Secretaria de Estrangeiros – felizmente acabado.” (ASSIS,Machado de. p. 81)


15. Intertextualidade e Intratextualidade “Todo texto se constrói como um mosaico decitações, todo texto é absorção e transformaçãode um outro texto” Julia Kristeva


16. Dicionário Houaiss INTERTEXTUALIDADE  substantivo feminino Rubrica: literatura.superposição de um texto literário a outro 1. influência de um texto sobre outro que o toma como modelo ou ponto de partida, e que gera a atualização do texto citado 2. utilização de uma multiplicidade de textos ou de partes de textos preexistentes de um ou mais autores, de que resulta a elaboração de um novo texto literário 3. em determinado texto de um autor, utilização de referências ou partes de obras anteriores deste mesmo autor

17. Com Shakespeare: 14 de Janeiro “A única particularidade da biografia de Fidélia é que o pai e o sogro eram inimigos políticos, chefes de partido na Paraíba do Sul. Inimizade de famílias não tem impedido que moços se amem, mas é preciso ir a Verona ou alhures. E ainda os de Verona dizem comentadores que as famílias de Romeu e Julieta eram antes amigas e do mesmo partido; também dizem que nunca existiram, salvo na tradição ou somente na cabeça de Shakespeare.” (ASSIS, Machado de. p. 18) Com Shelley: “Não pensei logo em prosa, mas em verso como lá ficou dito atrás, e tirado de uma das estâncias de 1821: „I can give not what men call love‟. (ASSIS, Machado de. p. 22)

18. Intertextualidade com a Bíblia 9 de julho Três vezes negou Pedro a Cristo, antes do galo cantar. Aqui não haveria galo nem canto, mas jantar, e os dois iriam logo pouco depois para a mesa. [...] E Fidélia deixaria a mesa sem chorar, como Pedro chorou depois do galo.9 de julho
19. Intratextualidade A intratextualidade ocorre quando, numa obra, o escritor cita a si próprio fazendo menção a outra obra de sua autoria.

20. “Não cuides que não era sincero, era-o. Quando não acertava de ter a mesma opinião, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava também guardar por escrito as descobertas, observações, reflexões, críticas e anedotas, tendo para isso uma série de cadernos, a que dava o nome de Memorial.” (ASSIS, Machadode.p. 19)

21. Tempo Há a presença simultânea de características do tempo cronológico e do tempo psicológico. Quanto ao tempo cronológico: não é raro o narratário receber informações que indicam temporalmente quando se deu os acontecimentos e às vezes o horário: Tempo cronológico: [...] aparece como uma sucessão cronológica de eventos: a personagem está com 20 anos, depois 22 [...] Essa sucessão pode ser explicitada pelo narrador ou deduzida pelo leitor [...] além da marcação cronológica, o tempo de relógio, ocorre com frequência. (JUNIOR, Abdala. 1995, p.54)

22. 23 de janeiro“[..] Rita escreveu-me agora (seis da tarde)pedindo que a espere amanhã, à noite, parairmos juntos ao Flamengo. Vou; há seis diasque lá não piso.”

23. Entretanto a narração do Conselheiro Aires baseia-se em sua memória. Tudo que é contado por ele é filtrado pela sua memória.Tempo psicológico: “o tempo cronológico distorcido em função das vivências subjetivas das personagens”(JUNIOR, 1995, p.54)

24. 28 de julho Eu nunca esqueci cousas que só vi em menino. Ainda agora vejo dous sujeitos barbados que jogavam o entrudo, teria eu cinco anos;[...]ficaram inteiramente molhados e foram pingando para suas casas. [...] Outra coisa que igualmente me lembra, apesar de tantos anos passados, é o namoro de um vizinha e um rapaz.

25. Devido a simultaneidade dos dois tempos é possível identificar o tempo do livro Memorial de Aires como predominantemente psicológico com traços do tempo cronológico.

26. Espaço Rio de Janeiro do final do século XVIII.Bairros: Catete, Flamengo, Andaraí e Botafogo.
27. Utilização de linguagem culta e direta• -Metáfora• -Ironia• -uso de adjetivos• -uso da metalinguagem• -digressões

28. Metalinguística “[...] é simplesmente simples, se tal advérbio vai com tal adjetivo, creio que vai, ao menos para mim.” “No tumulto da vida de suas seduções, vi que um dia para eles... A reticência que ai deixo exprime o esforço que fiz para acabar esta página em melancolia.” (ASSIS, Machado de.p.119)

29. Equipe:• Andreza Freitas, Anderson Cleyton, Daniele C. Silva, Marília Oliveira e Suelza S. Campêlo.



30. Referências Bibliográficas:


 BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. S. Paulo Martins Fontes. 2000.COSTA VAL, Maria da Graça. Produção escrita; trabalhando com os gêneros. CEALE/FAE/UFMG ET AL. Belo Horizonte - MG. 2007.KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2008.MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. pp. 146-225.
AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. Coimbra: Livraria Almeida, 1984JUNIOR, Benjamin Abdala. Introdução à análise da narrativa. São Paulo: Scipione, 1995


Autor: Oscar Wilde
Editora: Martin Claret
Páginas: 212

Na Inglaterra do século XX Dorian era um ingênuo e encantador rapaz que fascinava a todos com sua beleza. Seu amigo Basil Hallward nutria por ele uma possível paixão platônica. Após retratar Dorian num quadro que considerou sua grande obra, Basil teve de confessar que jamais exporia o quadro, pois este revelava muito de si – pra bom entendedor, ele achava que a obra revelaria toda sua adoração pelo amigo. Outro amigo de Basil, Henry Wotton, conheceu Dorian na ocasião em que este estava posando para um quadro, e também se deslumbrou com a beleza do jovem. Henry prega a todos o desprezo pela moral e a valorização suprema do prazer. Convencido pela opinião de Henry de que a beleza e a juventude são tudo, Dorian olha para seu retrato lamentando que este se mantenha sempre jovem enquanto ele vai envelhecer e deseja que se dê o contrário, que o retrato guarde as marcas do tempo e ele permaneça sempre com a aparência de um jovem. Mal imaginava que seu pedido seria realizado.
Influenciado por Henry, Dorian começa a viver uma vida desregrada, tudo inicia quando ele termina bruscamente um romance com uma jovem atriz, Sibyl Vane, por um capricho por vê-la interpretar mal, a moça comete suicídio e Henry o convence de que ele não tem culpa e não deve perder tempo chorando. É depois do caso de Sibyl que ele percebe que o retrato se altera como se revelasse sua alma, mas no seu próprio rosto não se nota nenhuma mudança. A partir daí ele estará sempre se desculpando de muitas crueldades que vem a cometer. O retrato será sempre escondido em um cômodo de sua casa.
Sabem aquele clichê? Bons livros e má companhia, Henry envenena- o com um livro. Ele é um personagem fascinante, o tipo de companhia que gera curiosidade pelo que há de obscuro, prazeroso e imoral (para a época), é impossível não desenvolver uma admiração pelo seu estilo de vida. E Dorian se torna igual ou pior, sua companhia leva amigos e amantes da ignonímia a suicídios. No entanto ao ver seu belo rosto angelical, poucos acreditam que ele é capaz de fazer tudo que lhe acusam.
 Finalmente Dorian demonstra uma vontade de se redimir, desiste de desonrar uma moça simples, mas pelas próprias palavras de Henry, ele fica em dúvida. Realmente quer ser bom ou apenas tem sede de novidade, de continuar alimentando seu ego?
Sem dúvida o romance de Oscar Wilde não poderia estar mais atual, a perdição de Dorian começa com um conselho que é muito comum ouvirmos hoje, que pode ser traduzido por: não sofra, vire a página, não vale à pena, o importante é estar feliz, encontrar o prazer, então suponho que vivemos uma época mais hedonista que aquela. Ah, a noção do que é moral ou imoral mudou muito de lá pra cá, mas quando se atinge o outro, quando se faz o outro sofrer sempre se está sendo imoral. Fora isso, como diria Henry, cada um tem nua natureza, a questão da influência é um detalhe e claro que é necessário nos libertarmos de toda a convenção, de tudo que nos impede de sermos nós. Uma leitura para refletir sobre nossos egoísmos, a moral, as aparências, enfim, para refletir muito.

Trecho
"Compreender perfeitamente a nossa natureza - é
para isso que estamos cá neste mundo. Hoje as pessoas temem-se a si próprias. Esqueceram o mais nobre de todos os deveres: o dever que cada um tem para consigo mesmo. É certo que não deixam de ser caritativos. Dão de comer aos que têm fome e vestem os pobres. Mas as suas almas andam famintas e nuas. A coragem desapareceu da nossa raça. Ou talvez nunca a tivéssemos tido. O temor da sociedade, que é a base da moral, o temor de Deus, que é o segredo da religião - eis as duas coisas que nos governam " 


O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde