Lançado originalmente em 1967 foi incluído pela UNESCO numa coleção das obras mais representativas da literatura mundial.
O romance narra a história da família Honório Cota,se iniciando assim que João Capistrano Honório Cota resolve unir em um sobrado a sua melancolica personalidade com a do falecido pai,o coronel Lucas Procópio Honório Cota,homem truculento que se impunha pela força.Depois de passar por uma traição na politica, João Capistrano se isola da cidade junto com sua esposa e filha.Se ele conseguiu unr sua personalidade com a do pai no velho casarão,o conseguiu ainda mais na filha:Rosalina.
Após a morte dos pais ela continua isolado de todos em fiel obediência ao pai e odio aos traidores da cidade.Rosalina passa os dias no silêncio com a única ocupação de fazer flores de pano e as companhias de uma empregada muda,Quiquina,dos fantasmas do passado e dos relógios cada um parado no dia da morte de um dos seus familiares.
Tudo começa a mudar com a chegada do falante Jesé Feliciano,vulgo Juca Passarinho,aos poucos ele consegue o que nenhum morador da cidade conseguiria ,a começar por um emprego no sobrado.
Rosalina passa a ser duas,durante o dia a personalidade do pai,a mansidão,a reserva.A noite o lado Lucas Procópio sobressai e ela se entrega à bebida e à lúxuria com José Feliciano,embora sempre com o pensamento no amigo de infância e quase noivo Emanuel.Ela tem um filho que nascido morto é enterrado de madrugada nas assombrosas voçorocas pelo pai.José Feliciano deixa a cidade.
No último bloco mais um relógio é parado e a cidade perde para sempre o sonho de reconciliação ''Lá se ia Rosalina para longes terras.Lá se ia Rosalina,nosso espinho,nossa dor.'' Mas Rosalina não morre,é levada da casa porque enlouqueceu e vagava a noite até o cemitério cantando uma misteriosa cantiga.
O narrador é onisciente.Cada um dos nove blocos narrativos é contado pelo molólogo interior de um personagem,as vezes Rosalina,Juca Passarinho,Quiquina,e até mesmo os moradores da cidade falando coletivamente.
Waldomiro Autran Dourado - nascido em Patos,Minas Gerais em 1926 - teve seus livros traduzidos em várias línguas e ganhou o prêmio Goethe em 1982 com o livro As imaginações pecaminosas.


Só algumas passagens do Livro do desassossego com as quais me identifico...

"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como
sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a
substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de
milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança
sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo
mais porque vivo maior."

"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem
importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto."
"De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a
compreensão profunda de estar sentindo...Uma inteligência aguda para me destruir, e um
poder de sonho sôfrego de me entreter...Uma vontade morta e uma reflexão que a embala,
como a um filho vivo..."

"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura."

"A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me
os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção
analítica não consegue definir."

"O isolamento talhou-me à sua imagem e semelhança. A presença de outra pesoa - de uma só
pessoa que seja - atrasa-me imediatamente o pensamento, e, ao passo que no homem normal o
contacto com outrem é um estímulo para a expressão e para o dito, em mim esse contacto é
um contra-estímulo."
"Os meus hábitos são da solidão, que não dos homens"; não sei se foi Rousseau, se Senancour,
o que disse isto. Mas foi qualquer espírito da minha espécie - não poderia talvez dizer da
minha raça."

"Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!"